15 setembro 2010

Foi em Serafão !!


Fafe é amável. Em tempos, queixava-me da sua monotonia. Contudo, agora descobri o encanto deste município que de monótono – afinal - nada tem. Daqui advém a sua amabilidade e fascínio. É um lugar facilmente retratável num daqueles romances em que a cada página há um novo acontecimento que, apesar de não alterar o rumo da história – que é invariavelmente a mesma -, lhe dá aquele pique de intensidade e de (des)interesse. Às vezes, parece que a intensidade se esvai e a última página – a do desfecho – se aproxima, mas não! Vem sempre uma novidade e o livro não tem fim. Começo, sinceramente, a ficar farto deste livro. Gostava que neste romance a tolice pudesse ser proibida ou considerada crime, tanto me dá.
Não gosto muito de o fazer, mas vejo-me forçado a relatar uma situação que me é “próxima”. Tento ser imparcial e distanciar-me. Reconheço que pode parecer que não o faço. De tão gritante considerar o assunto e de tanto me moer as entranhas, tenho real dificuldade em fazê-lo.
Passo a contar a história digna de livro de contos.
Ainda era eu uma criança, bem pequena por sinal, quando me recordo de uma das pessoas que mais admiro ainda hoje, o meu querido avô, ter adquirido - na sua aldeia - um espaço, onde queria permanecer quando os seus dias se acabassem. Então – para não mentir – não sei bem como se passou, em pormenor, na época. Sei que, na aldeia, havia um sítio que aprendi a designar por jazigo de família. Quem me ensinou não me recordo ao certo, mas nos dias de romaria, ou de finados, foi ali que fui ensinado a avivar na memória os meus antepassados.
Entretanto, como a todos, ao meu avô os dias acabaram.
Há tempos, apesar de não prezar essa forma de me recordar das pessoas que considero sempre presentes, dirigi-me (e ainda bem) ao local que o meu avô tinha reservado para si. Ao lá estar, por momentos, voltei a ter o pensamento de criança, de quando o meu avô me ensinava coisas novas, que dele faziam o ser mais inteligente no planeta. Porquê? Ainda imbuído nesse infantil raciocínio, julguei que tivesse escolhido o melhor local da aldeia para repousar… Creio que o meu avô escolheu um terreno normal, ou até nem escolheu, tendo-se limitado a um que lhe tenham atribuído. Porém, alguém após a sua morte decidiu que ali era o melhor ponto da freguesia para pôr outra pessoa a descansar. Então? Um excelentíssimo senhor resolveu que – ao contrário do que mandam as leis da matéria, sim há leis! – o meu avô poderia ter um vizinho germinado. Deixou construir-se, há poucos meses, uma bela capela a “colada” à campa rasa que alberga os meus familiares. (O lugar deve mesmo ser óptimo para o descanso final. Julgava, até então, esta espécie de terrenos todos iguais.)
Pensava eu, nesse tempo (poucos meses atrás) “Bem, se não está de acordo com a lei, vai ser demolido tal edifício e deixarão que o sol brilhe sobre o «melhor» terreno da freguesia”. Surpresa minha, tal não aconteceu.
Resolução quererá o leitor saber depois de tanta parra com pouca uva.
A junta de freguesia, que prefiro classificar de inábil, para não utilizar a demais adjectivação que a brilhante Língua Portuguesa nos empresta, soluciona o problema: o meu avô que ali jaz por direito (comprou um terreno, é direito privado), junto de outros familiares, vai por decisão de um executivo (nem sei se é assim que se lhe chama), que de executivo nada tem aos meus olhos, ser transferido para outro terreno que ele não comprou e não edificou e onde não sei se ele se “sentirá” bem. Se foi ali que ele construiu a sua última morada, porque haverá de ir descansar para outro talhão?
A Junta de Freguesia decidiu que assumirá os custos de uma nova edificação - similar à original - para o meu avô, noutra rua, que mais não fez do que estar, na morte, como na vida, descansado ao seu canto.
O que encontro de mais caricato nesta situação é que, quem apenas suas obrigações cumpriu, não pode imaginar-se no direito de usufruir do que é seu – o seu canto. Contudo, quem depois chegou e as leis infringiu (sim, a obra foi embargada, apesar de ter continuado), ficará nesse local, com a opulência da sua nobre moradia sobre a rasa campa de meu avô (que já lá estava, há mais de uma dezena de anos).
Resumindo, estava tudo bem, quem levou com um vizinho “ilegal” é corrido, ficando o vizinho no seu sítio “ilegal”. A Freguesia (note-se: todos nós!, contribuintes) oferece-se a pagar um novo jazigo ao meu avô. Então, um qualquer indivíduo prevarica e o sector público não só encobre todas as ilegalidades (desde a construção fora de medidas, a continuação de uma obra embargada, etc), como ainda suporta os custos de deslocalização de quem estava bem e passou a estar sufocado por um vizinho desrespeitador. Caso para dizer, o crime compensa (e dá prejuízo ao estado).
Pela memória do meu avô, pela vontade de preservar na memória o que de melhor me transmitiu (o respeito), não consigo deixar de homenagear – respeitosamente - o sujeito que esta situação gerou. Escrevi este texto pois era a única forma que tinha de deixar ao senhor Presidente da Junta de Freguesia - cuja homenagem nem ouso aprofundar dada a imperfeição dos pretéritos que me ocorrem - o meu agradecimento público por ser mau autarca, por lesar (desnecessariamente) o estado em uns milhares de euros e por não ter em consideração os meus antepassados.
Se aos meus não respeita, suspeito que também não respeitará os demais, por isso auguro que se redima à sua original vida que não a de condutor dos destinos da freguesia onde barbaridades afins será capaz de cometer.

João Coimbra

Ps: No fundo, isto não o deve preocupar. Não voto na sua freguesia, por isso não se importune com a minha fugaz reclamação…
Haja paciência!

3 comentários:

Fernando Silva disse...

Bom Dia !!!

Este texto faz me lembrar uma serie de situacoes que todos nos ja presenciamos.

Todos nos sabemos que este pais as regras estao todas ajustadas de tal forma que beneficiam ladroes, mafiosos, incumpridores, pessoas que nao gostam de trabalhar, aldabroes, gatunos, e todos aqueles que nao cumprem as leis.

Que justica ha por exemplo no seguinte caso :

Maria trabalha na fabrica por 500 €
Manuel vive do Subsidio de incersao com os mesmos 500 € ?

A analogia que vejo que vejo nestes dois casos e muito simples este pais priveligia quem nao faz nada, quem nao cumpre as leis como e o caso do texto.

E aos cumpridores resta lhe pagar para todos os que nao gostam de trabalhar, os que gostam de nao cumprir as leis etc.

E o pais que temos.

Alex disse...

Ó Fernando... o país que temos paga subsídio de inserção a pessoas que sobrevivem com MUITO POUCO. E não há NENHUM beneficiário do RSI a receber 500 euros! O MÁXIMO que cada um pode receber é 189 euros (ou 246 se estiver grávida)!

Tente calcular quanto recebe uma família em que um adulto receba 500 euros, outro esteja desempregado há mais de 2 anos (e por isso não recebe subsídio de
desemprego) e que tenham três filhos menores... Têm portanto 500 euros para 5 pessoas... Qual será o valor que recebem de RSI para ajudar no seu dia-a-dia. Vai ficar espantado com o resultado!

Calcule aqui: http://www1.seg-social.pt/left.asp?03.06.06

80,14 euros foi o valor médio da prestação RSI por beneficiário em
2007.

Mas concordo consigo quando diz que "este país privilegia quem não faz nada, quem não cumpre as leis". Basta ver que as quatro instituições financeiras (BCP,BPI, Banco Espírito Santo, Santander Totta) lucraram um total de 376,2 milhões de euros no primeiro TRIMESTRE.

Anónimo disse...
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