23 março 2011

A Grande Comunicação Não Liga ao Interior


1. É uma crítica recorrente e, deixem-me confessar, perfeitamente justa: a comunicação social de expressão nacional, a começar pelas televisões e a acabar nos jornais, salvo raríssimas e episódicas excepções, não liga a mínima peva ao que de positivo, agregador e entusiasmante se está a fazer pelo país, e sobretudo no interior. Quando uma desgraça acontece, um assassínio, um acidente, uma manifestação contra o encerramento do centro de saúde ou quando episódios de violência de qualquer espécie são conhecidos, as televisões saltam, como por encanto, para a rua, os jornais enviam pressurosas equipas de reportagem, as rádios dão directos emocionados para os principais serviços noticiosos.
O sangue, a violência, o sexo, o dramatismo, o exacerbado “vendem” páginas de jornais ou aberturas de telejornal, porque o “voyeurismo” dos portugueses é explorado até à alma. Tudo o que é negativo ganha lugar de destaque nos media, porque responde aos estereótipo do que alegadamente os espectadores e leitores estão à espera.
Pelo contrário, as notícias positivas, quaisquer que sejam, mas sobretudo da área da cultura, aparecem na comunicação social de expressão nacional, quando acontecem nos palcos da capital ou, quando muito, do Porto. Ou quando o Presidente da República visita uma exposição, ou José Sócrates inaugura um museu. O resto do país e do tempo mediático, continuam, revoltantemente, a ser paisagem, não interessando minimamente às agendas dos editores dos grandes meios de comunicação, que não conhecem o território e que vão exercendo os seus pequenos poderes nos espaços em que se revêem, por razões nem sempre de índole informativa.


2. As afirmações anteriores traduzem algum pesar pela (quase) indiferença com que a grande comunicação tem tratado uma das maiores manifestações culturais que por estes dias teve como palco o município de Fafe.
Desde a passada segunda-feira e até hoje, 21 de Março, Fafe protagonizou um evento de grande dimensão cultural e educativa, concretizado nas Segundas Jornadas Literárias de Fafe, sob o lema “Palavras com Liberdade”.
Ao contrário de outros eventos congéneres, em que se convidam escritores e se “compra” um formato de certame para o qual apenas é necessário ter orçamento recheado, em Fafe todas praticamente as iniciativas foram organizadas e levadas e efeito pela comunidade local, dos jovens aos adultos.
Desde logo, o que haverá a evidenciar é a adesão à iniciativa de todos os agrupamentos e escolas do concelho. Além do município, que financia e coordena as Jornadas, estão envolvidos na organização a Escola Secundária, os Agrupamentos de Escolas Prof. Carlos Teixeira, Montelongo, Arões, Silvares e Padre Joaquim Flores, a Escola Profissional e o Colégio da ACR Fornelos, bem como o Núcleo de Artes e Letras de Fafe, o Cineclube de Fafe, a editora Labirinto e a Academia de Músic a José Atalaya. Mas outras entidades locais participam nos diferentes números do evento, que se salda pela maior participação popular em termos de espectáculos e de iniciativas culturais ao longo de todo o ano. Muitos dizem que é um acontecimento “histórico”.
Basta ver que na segunda-feira passada, o espectáculo de abertura, no Pavilhão Multiusos, juntou várias centenas de jovens de inúmeros estabelecimentos de ensino e bem mais de mil espectadores, durante mais de duas horas onde imperou a música, a dança e a poesia.
Entretanto, além do lançamento de diversas revistas e obras literárias e de encontros com escritores (Moita Flores, por exemplo), de espectáculos de teatro para a população escolar, de filmes, exposições e outras actividades realizadas em cada agrupamento e escola, em homenagem a escritores como Camões, Fernando Pessoa, José Saramago ou Alice Vieira, o realce vai para um grande espectáculo realizado este sábado, intitulado “Memórias de um Povo”, que avivou tradições, usos e costumes e levou ao Pavilhão Multiusos mais de um milhar de pessoas, metade dos quais figurantes, que recriaram procissões, actividades agrícolas, cantares de reis, marchas sanjoaninas, desfiles carnavalescos e outros números de grande impacto local. Para a noite de hoje, dia mundial da poesia, da árvore e começo da primavera, está previsto um grande espectáculo de encerramento, sob o tema plagiado a Florbela Espanca, “Ser Poeta é Ser Mais Alto”, no Teatro-Cinema, durante o qual serão entregues prémios literários, será declamada poesia e se assistirá à recriação de uma fabulosa obra de Fernando Pessoa (Mensagem), pela Academia de Música José Atalaya.
A cultura em Fafe está em alta, quer em quantidade, quer em qualidade. Indubitavelmente. Pergunte-se aos milhares de pessoas que estão a participar activamente nestes eventos. Infelizmente, a comunicação social que leva a informação aos lares dos portugueses ignora o que se está a passar neste município, desconhece o esforço e o sacrifício de dezenas de pessoas que andaram pelas escolas e pelas aldeias a ensaiar e a cativar jovens e menos jovens em torno de uma causa cultural, educativa e de lazer. É o geral silêncio sepulcral e ensurdecedor, quando coisas bonitas se estão a fazer na cidade e no concelho.

3. E se durante um espectáculo destas Jornadas altamente positivas e frutuosas, em termos educativos, culturais e sociais, mobilizando afirmativamente todo um concelho, um palco ruísse e dois actores ficassem feridos (lagarto, lagarto…) com alguma gravidade?
Ninguém mais falava no êxito indesmentível de uma semana gloriosa, o que não é interessante para a história. As televisões saltariam, como por encanto, para a rua, em direcção a Fafe, os jornais enviariam pressurosas equipas de reportagem, as rádios dariam directos emocionados para os principais serviços noticiosos…

In http://www.correiodominho.com/, 21/03/2011
por Artur Coimbra

12 comentários:

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

O que o Dr. Artur Coimbra diz e escreve é verdade. Os meios de comunicação social não ligam patavina a Fafe. Talvez a estratégia passe por convidar para este tipo de jornadas algumas personalidades fafenses que pelo seu trabalho são já uma referência para as televisões. Assim, as televisões estariam em Fafe. Assim, estaria garantida a divulgação para todo o país de um evento meritório.

Pedro Sousa disse...

O que o Dr. Coimbra se queixa é precisamente o mesmo que dizem as freguesias em relação a Fafe e aos jornais. (Há freguesias que só acontece o bem, porque é o Presidente da Junta a escrever, outras o mal se é da oposição e o bem se não é.) Assim como dizer algo contra a câmara não é fácil... podem deixar de apoiar os editais e lá se vai o orçamento. O princípio da importância é equivalente, ainda que noutras dimensões...
Eu compreendo o Dr. Coimbra, mas às vezes é preciso acontecer na nossa casa para perceber o que se passa com os outros... Contudo, o que aconteceu nestes dias em Fafe, merece ser analisado de vários pontos de vista, inclusivé cenográfico, e só assim teria o merecido reconhecimento. Foi convidado alguém com conhecimentos técnicos para o fazer? A cultura e a arte em geral são meios mais complexos do que pode parecer, se nos quisermos afirmar temos de estar abertos principalmente à crítica... essa é que torna grande os acontecimentos.
Só estive presente no sábado, não posso falar muito dos distintos acontecimentos, mas considero-os positivos, que fique bem claro. Venham mais, independentemente do mediatismo ou não!

Alex disse...

E assim "Acontece"...
Já houve tempos em que tínhamos na televisão pública um programa diário de meia hora de divulgação cultural.

Mas essa "comunicação social de expressão nacional" foi contactada? e o que responderam?

Eles costumam aparecer por cá quando é a Volta em Bicicleta. Será que só aparecem se lhes pagarem? Se calhar habituaram-nos mal...

Anónimo disse...

Tirando figuras públicas fafenses, que trabalham e vivem fora do concelho, Fafe não tem um chamariz. Deviam pensar em convidar essas pessoas e certamente tinham as televisões. O problema é pensar que os outros, os que não são fafenses, são melhores...
A Câmara Municipal de Fafe devia convidar essas figuras públicas, que são fafenses, e aparecem, com reconhecimento, nos canais de televisão. O sucesso estava garantido.

Anónimo disse...

Boa tarde!
Começo por dizer que estou completamente de acordo com o texto do Dr. Coimbra, que juntamente com toda a organização das jornadas, muito se empenhou para que as mesmas decorressem bem. E, quando se trabalha o resultado está à vista, estas jornadas foram um autêntico sucesso. Estão de parabéns todos aqueles que se esforçaram num trabalho celectivo em prol das letras e da cultura fafense. Foi uma semana recheada de cultura e de festa promovidos por todas as escolas, o que nos deixa muito orgulhosos e felezes. Quanto à comunicação social,acho que não devemos valorizar a sua ausencia.Vale o que vale. A melhor lição que podemos tirar é o sucesso deste grande evento. PARABÉNS A TODOS...M.C.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 01:31,
Não está em causa o mérito da iniciativa. O que esá em causa, e é disso que o Dr. Coimbra se queixa, e bem, é da falta de ressonância da iniciativa ao nível do país. De facto, não li, não ouvi e não vi referências ao evento na comunicação social. É pena. A estratégia tem de ser repensada. Para estas iniciativas é preciso convidar alguém que seja cartaz e que traga a televisão.

Pedro Fernandes disse...

Estas jornadas foram um sucesso porque houve o envolvimento e a participação da comunidade fafense, sobretudo a escolar. O mesmo já se havia passado aquando da realização do Mundial de Andebol Escolar. Isto vem provar a qualidade dos nossos alunos, das nossas escolas e professores.
A autarquia soube montar um evento que começou, no ano passado, algo tímido mas, este ano, já teve uma dinâmica digna de destaque. O futuro destas jornadas, por isso, estão "condenadas" ao sucesso e a um marco cultural no nosso concelho. Parabéns à autarquia por isso!
Por último, subscrevo inteiramente as palavras do Artur Coimbra, embora acrescente também umas pequenas notas: A comunicação social em Portugal é o reflexo do estado em que o país se encontra... Fafe, na sua interioridade, merece outro destaque na comunicação social até porque existem eventos que se passam em Fafe que metem muitos outros eventos em destaque na "grande" comunicação social num bolso... Aí se não há boa vontade da comunicação social, pouco há a fazer. Mas, por outro lado, isso deve-se ao facto de Fafe não ter, nem nunca ter tido, uma estratégia de comunicação. O site da Câmara é exemplo disso...
No entanto, centremo-nos naquilo que é importante. Estas jornadas literárias dignificam Fafe e a sua comunidade. O mais importante nisto tudo é a dinâmica, a participação e envolvimento da comunidade em torno da literatura. E, é por essa razão, que este evento deve ser valorizado.

Anónimo disse...

O problema meus caros, está na nossa comunicação social, incluindo os n/ jornais locais e rádio local(?) que só vivem com situações bombásticas.
Lembram-se de um indivíduo que se barricou em casa, para os lados da Cisterna? A televisão apareceu ao mesmo tempo que a GNR.
Mas mesmo sem comunicação social, valeu a pena e pode chegar a altura em que tenham de nos pagar para divulgar. Façámos por isso aumentando o nível destas jornadas

Miguel Summavielle disse...

Caro Dr. Coimbra,
Começo saudando-o por se juntar a este fórum enquanto colaborador. O “Montelongo” fica mais rico.
Não participei nas “Jornadas Literárias de Fafe” mas, acreditando na imprensa local, julgo que se deve reconhecer o sucesso da organização e a dinâmica que criou em seu torno.
Não sou adepto, como se imagina, do “orgulhosamente só”. Entendo natural queremos ver divulgadas as nossas actividades (ou aquelas em que temos participação), até porque estamos naturalmente empenhados nelas e regozijamos com o seu reconhecimento.
Julgo, no entanto, que a sensação de dever cumprido e de um trabalho bem feito, ninguém lha tirará, e essa, seguramente, é a mais valiosa das recompensas.
Mas a verdade é que tudo tem apenas a importância que lhe atribuímos. Neste caso, por muito que nos custe, Fafe está demasiado distante e não possui suficiente relevância para poder ter voz na imprensa Nacional.
Talvez o Município pudesse ter tentado combater este facto, convidando os Srs. Secretários de Estado da Cultura e do Desporto. Dois membros do Governo, com ligações fortes a Fafe, poderiam trazer a relevância suficiente para o evento ser notado…
Resta-lhe, pelo menos, a imprensa local. Olhe que há em Fafe quem seja obrigados a publicar um boletim para ver as suas acções divulgadas…

Camarada Liberal disse...

Boa Engenheiro.
Mas o Sr Secretário de Estado já levantou voou há muitos anos.Para ele, vir a Fafe, é "ir à terra".Pode ser que, após a próximas legislativas, caso não renove o contrato, o Secretário de Esatdo (em gestão) se lembre de Fafe outra vez, para se manter com o a cabeça fora de água na sua longa carreira política. Será que ainda há lugar para ele em Fafe. Os socialistas fafenses é que sabem. Mas creio que o teremos por cá.será ele o desejado para acabar com as lutas de poder internas ?!

Pedro Sousa disse...

Camara Liberal, estou consigo! Com estas palavras, podemos verificar que os nossos políticos de Fafe e em Fafe só são mesmo fortes 'intramuros'... porque para ter direito de antena ou trazem figuras de momento ou pagam, caso contrário ninguém lhes liga puto! É a vida... Como já alguém disse: «Fortes entre os fracos e fracos entre os FORTES».