01 julho 2010

Fafe Espoliado do seu Passado


O concelho de Fafe, como tantos outros desta região minhota, é fértil em vestígios arqueológicos que testemunham a passagem e fixação humana desde a Pré-história à Idade Moderna.
Ao longo do tempo, aqui e ali, surgiram achados fortuitos de tipologia e cronologia diversos. Estes espólios de enorme valor científico e cultural foram sistematicamente desviados da sua origem, sendo que Fafe vê-se hoje despojada de um rico acervo arqueológico que, há muito, deveria constituir um espaço museológico dedicado aos primeiros ocupantes desta Terra de Montelongo.
Em 1876, foi encontrada a estátua de um guerreiro galaico (Idade do Ferro) que na época foi adquirida pela Sociedade Martins Sarmento de Guimarães, onde actualmente se encontra; em 1903, para os lados da Arnozela, um grupo de pedreiros encontraram um verdadeiro tesouro atribuído à Idade do Bronze, composto por vários braceletes em ouro, que acabaram em Lisboa onde estão actualmente no Museu Nacional de Arqueologia; nas escavações realizadas no Povoado Castrejo de Santo Ovídio, nos anos 80 do século passado, foram recuperadas centenas de peças arqueológicas, que após tratamento laboratorial em Braga por lá ficaram, fazendo algumas parte da exposição permanente do Museu D. Diogo de Sous. Mais recentemente, em 1999, a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho efectuou escavações em Vale Ferreiro, na freguesia de Serafão, onde foram recolhidos espólios da Idade do Bronze, entre os quais uma peça em ouro. Estes materiais também foram para Braga a fim de serem estudados. Passados quase dez anos por lá continuam guardados.
Na realidade, Fafe nunca foi muito adepto do seu Património Arqueológico, que vai sendo agredido e até destruído, sem parecer preocupar as entidades responsáveis.
O estado do Património Arqueológico fafense é muito preocupante. Se nada for feito para a sua salvaguarda, as gerações vindouras verão Fafe espoliado dos seus mais antigos testemunhos de uma ocupação humana com cerca de 6.000 anos.

Jesus Martinho

16 comentários:

Alex disse...

Se "Na realidade, Fafe nunca foi muito adepto do seu Património Arqueológico, que vai sendo agredido e até destruído, sem parecer preocupar as entidades responsáveis." como diz Jesus Martinho, então acho que é preferível que as peças continuem nos museus onde, imagino eu, estão livres de perigo. Mas fez bem lembrar.

No Peru, o americano que fez pesquisa arqueológico no Machu Picchu levou tudo o que lhe apeteceu para os EUA. O Peru reclama agora a sua devolução.

Faz sentido que as peças encontradas em Fafe regressem para cá mas não para ficarem num caixote numa arrecadação da Câmara... Onde é que ficariam?

Ana Oliveira disse...

O espólio de Fafe que se encontra disperso por vários locais devem sim regressar a quem diz respeito. Obviamente deve regressar apenas quando existirem condições imprescindíveis para a sua conservação, organização e tratamento, sendo um trabalho que deve ser tutelado por técnicos com formação específica e sensibilidade para tal. Para sermos negligentes mais vale estar quietos. Não vale a pena investir dinheiros públicos para colocarmos os espólios em arrecadações sem condições.
Mas quando falamos de pontes e outro tipo de vestígios arqueológicos, claro que não os podemos colocar em museus. Pelo que diz Jesus Martinho, está tudo por fazer... por isso, mãos à obra como diz o povo.

António Daniel disse...

Digo-o com sinceridade: Fafe não merece possuir esses achados. Numa perspectiva simbólica, é possível ficarmos aborrecidos com o espólio arqueológico não estar no sítio onde sempre esteve, numa perspectiva pragmática, é muito interessante estar num sítio que lhe dá a devida importância. O novo riquismo e a falta de sensibilidade cultural que sempre foi apanágio das gentes de Fafe (como prova a argumentação de Jesus Martinho e como prova o modo embrutecedor como a cultura sempre foi vista)não merece possuir esse espólio. É um ponto de vista que é uma vista através de um ponto.

Pedro Fernandes disse...

Fafe nunca deu valor à Arqueologia. Só a associação ARCO é que, nos últimos tempos, se tem dedicado mais a estes assuntos e aí devemos dar os parabéns ao Jesus Martinho pela iniciativa e pela preservação e conhecimento desta importante parte da nossa história local.
Acho lamentável que estas relíquias se encontrem espalhadas um pouco por todo o lado em vez de estarem na nossa cidade, num local digno, onde as escolas e as pessoas pudessem conhecer um pouco do nosso passado. Como esse lugar não existe, ao menos que estejam num local onde as mesmas estejam preservadas.
Já tive oportunidade de visitar o Museu Martins Sarmento em Guimarães e pudemos lá ver a estátua do guerreiro galaico devidamente numerada e onde o local de origem da mesma está bem identificado. Se bem me lembro, também podemos ver alguns azulejos da igreja românica de Arões.
O mesmo não se passa no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa. No ano passado visitei-o e procurei pelas braceletes de ouro descobertas em Arnozela. Como haviam centenas de peças em ouro naquele local,e muitas com a mesma proveniência (haviam muitas que diziam ser originárias do Minho/ Baixo Minho, etc, mas especificamente nenhuma referia Fafe). Procurei um funcionário para me indicar onde estariam as braceletes originárias de Fafe.
O curioso disto tudo é que não me soube responder mais daquilo que eu poderia ler nas indicações das peças, tendo dito que o acesso à base de dados do Museu lhe estava limitado, tendo-me reencaminhado para uma técnica superior de arqueologia que naquele momento não estava presente, logo, não me soube "matar" a curiosidade e fiquei sem saber quais eram as peças de Fafe.

António Daniel disse...

Vou este fim-de-semana ao Museu de Arqueologia (julgo que fica no Mosteiro dos Jerónimos), só por curiosidade. Mas aquilo que o Pedro afirma não é surpreendente. Lisboa, na sua prepotência cultural, «borrifa-se» para as identidades regionais.
Evidentemente que, como fafense, também tenho de agradecer ao jesus Martinho.

Pedro Fernandes disse...

Caro António Daniel, o Museu Nacional de Arqueologia fica situado no Mosteiro dos Jerónimos.
Espero que tenha mais sorte que eu e que lhe seja mostrado as braceletes fafenses (penso que são muito similares a muitas outras que por lá se encontram da nossa região)

Jesus Martinho disse...

Antes de mais quero afirmar que fico surpreendido com o interesse que o meu post está a despertar. Agradeço todos os comentários, que são generosos e são também, acreditem, a melhor recompensa para um fafense adoptvo cuja grande
paixão é o fascinante Mundo da Arqueologia. Quase com três decadas a trabalhar como profisional nesta vertente Cultural e Ciêntifica, sinto cada vez mais vontade de descobrir e descodificar os restos materiais de uma vivência ancestral, que em Fafe reserva muitas surpresas.
Ao Alex quero dizer que na minha modesta opinião, há muito que o Município deveria ter um espaço Museológico de Arqueologia.
Há minha cara Ana Oliveira digo que nunca cruzei os braços e tenho feito o que está ao meu alcance em prol do Património Arqueológico de Fafe.
Ao sempre atento e eloquente António Daniel quero agradecer o comentário e dizer que na situação actual tenho de concordar com as suas afirmações,ao Pedro Fernandes agradeço também, deixando um reparo que até vem de encontro com a ideia do António Daniel, realmente tentei criar uma escola de Arqueologia no seio da Associação ARCO, visando também a requalificação do Povoado Castrejo de Santo Ovídio. Apesar do esforço, a falta de sensibilidade da Direcção da ARCO conduziu ao meu afastamento e com isso ao retorno do abandono das ruínas do Povoado... até um dia destes, espero eu.

Anónimo disse...

Espera-se e desespera-se. Já está mais do que na altura do Município de Fafe colocar em prática aquilo que diz. Prometem, prometem e não cumprem. Para isso mais vale estar calados. Valha-nos o interesse do Jesus Martinho que há anos luta contra um sistema lento e defeituoso, em que como o Património não dá grandes votos, é votado ao abandono total. Enfim... Fafe ganharia imenso em mudar a forma como encara o Património. Afinal é obrigação de todos respeitar, conservar a proteger o que afinal é de todos. Mais um pouco e ainda acabamos por ter de pagar do nosso bolso para proteger o que é de todos.

Miguel Pereira disse...

Em vez de se preocuparem em fazer seminários, exposições e outras coisas sem interesse nenhum para a população, em que muitas vezes nem chegam ao conhecimento das pessoas (e se chegam não gerem interesse nenhum), onde aparecem para fazer número aqueles que estiveram na concepção da iniciativa.... ORGANIZEM INICIATIVAS DE DEFESA DO QUE É NOSSO, DO NOSSO PATRIMÓNIO, ANTES QUE SEJA TARDE... AINDA POR CIMA O ESTADO QUE É O RESPONSÁVEL PELA PROTECÇÃO DESSES LEGADOS É POR NORMA O PRINCIPAL CULPADO E DESTRUIDOR (provavelmente os interesses inerentes à área da construção gera mais felicidade...).

Anónimo disse...

Continuo a dizer que 'é preciso uma Revolução Cultural', mesmo que esta esteja coberta com terra... está na altura de projectos culturais como deve ser.
Fafe tem investigadores, tem programadores, mas faltam verdadeiros 'PROMOTORES CULTURAIS'!

pedromiguelsousa disse...

Continuo a dizer que 'é preciso uma Revolução Cultural', mesmo que esta esteja coberta com terra... está na altura de projectos culturais como deve ser.
Fafe tem investigadores, tem programadores, mas faltam verdadeiros 'PROMOTORES CULTURAIS'!

atrium disse...

A ATRIUM VOLTOU!
Segue o Blog em:
atriumfafe.blogspot.com

António Daniel disse...

De facto, no museu de Arqueologia, na parte dos tesouros, não existe qualquer menção ao achado de Fafe, embora exista inscrições de Cabeceiras de basto e outras localidades do país. Também possui achados de estátuas, semelhantes ao guerreiro presente na Sociedade Martins Sarmento, de muitas localidades do país. O acervo presente neste museu é bastante limitado comparando-o com outros por essa Europa. É, no fundo, uma imagem de Portugal. Quantos «achados» não foram achados e quantos «pedras» não foram usadas nas construções?

Jesus Martinho disse...

António Daniel, os blaceletes de Arnozela fizeram parte de uma exposição do Ouro promovida pelo Museu Nacional de Arqueologia, é natural que, na actualidade não façam parte da exposição permanente. Contudo existem na reserva do Museu.
Acedendo ao site do MNA e pesquisando em colecções lá aparece o bracelete de Arnozela, curiosamente não fazem referência aos restantes!

Miguel Summavielle disse...

Obrigado Martinho pelo interesse e empenho que sempre demonstrou no estudo e preservação do nosso património arqueológico.
O Município tem em projecto a realização de obras de remodelação do edifício do "Grémio da Lavoura" para instalar o Arquivo Municipal.
Não seria de pensar em fazer dois em um?
Fica a sugestão!

Jesus Martinho disse...

Agradeço o comentário de Miguel Summavielle.
É certo que o palacete que refere vai ser requalificado e adaptado a Arquivo Histórico Municipal, uma equipamento fundamental para a preservação do nosso acervo documental. Julgo que o projecto contempla um espaço destinado a exposições e animação. Não tenho conhecimento se o espaço dá para muito mais que o Arquivo Histórico e toda a orgânica a ele associada.
A Associação ATRIUM está a precisar de uma sede!