21 dezembro 2009

Vestígios da presença muçulmana no concelho de Fafe


O concelho de Fafe encerra inegáveis testemunhos de que por estas terras terão passado em distintos períodos históricos, povos de várias proveniências. Nesta linha de análise histórica, encontram-se por exemplo os romanos, como asseveram os vestígios arqueológicos disseminados pelo concelho, particularmente notórios no afamado castro de Santo Ovídio.
Escrevo, no entanto, este artigo para chamar a atenção para uma outra civilização que esteve igualmente presente no actual território do actual concelho de Fafe, nomeadamente a civilização muçulmana.
A maioria de nós tem a ideia de que a presença islâmica em Portugal, iniciada com a invasão da Península Ibérica no ano de 711, abrangeu somente os territórios do sul do país. Esta ideia bastante vincada na expressão popular: «A sul de Coimbra são todos mouros”, está completamente descabida de verdade histórica.
Quem analisar o período histórico em questão no concelho de Fafe, fica verdadeiramente deliciado com a profusão de indícios que corroboram que os muçulmanos estiveram nestas terras. Assim, é possível estabelecer alguns pontos de análise que nos permitem sustentar esta afirmação:
O estudo das origens dos nomes das freguesias do concelho de Fafe evidencia possíveis étimos de origem muçulmana. A começar, o nome “Fafe” bastante comum na designação árabe “Halafafe”, como enfatiza o germanófilo Joseph M. Piel. Ainda nesta linha, Lopes Oliveira menciona igualmente que o nome “Seidões” é de origem árabe.
Na opinião de Pinho Leal, autor da obra “Portugal Antigo e Moderno”, também o nome “Fareja” é de origem árabe “Fareija” que significa “prazer”. Pinho Leal salienta ainda que nos limites da actual freguesia de Fareja existiu a antiquíssima cidade “Eufragia”, que segundo o mesmo foi destruída no ano de 965, pelo mouro Al-Coraxi, rei de Sevilha, que a arrasou completamente.
Num testamento, datado de 747 e em outro documento de 760, publicados na obra “Espana Sagrada” de Florez, o bispo Odoário, refere que na reconquista da cidade de Lugo aos muçulmanos, apoderou-se igualmente de muitas outras terras rurais, entre as quais “Guntini” que alguns historiadores identificam com a actual freguesia de concelho de Fafe “Gontim”.
A partir da reconquista cristã as terras que se desintegravam do domínio muçulmano, processo comum desde o séc. IX ao séc. XII, tornavam-se pontos estratégicos na defesa do reduto cristão. Esta estratégia de defesa cristã está patente no chamado Penedo dos Mouros na freguesia de Quinchães onde terá existido um castelo “roqueiro” e possivelmente na freguesia de Travassós, no lugar da Atalaia, designação que significa torre ou lugar de vigia.
Perante este quadro de análise histórico podemos concluir que os muçulmanos ocuparam durante um curto espaço de tempo (séc. VIII-IX) o norte da Península Ibérica, como demonstram alguns vestígios da presença muçulmana no território do concelho de Fafe. Esta situação deveu-se essencialmente à conjugação de dois factores: por um lado a região montanhosa, acidentada e pobre das Astúrias (atente-se no nome da freguesia do concelho de Fafe “Estorãos”) não incitava à ocupação efectiva do território, e por outro lado foi nessa região que se organizou o movimento de reconquista contra o domínio muçulmano.

Daniel Bastos

10 comentários:

António Daniel disse...

Caro Daniel, excelente texto. Rigoroso e objectivo. Interessante a importância da linguagem como mecanismo de descoberta. Sem dúvida, um auxiliar indispensável para a compreensão histórica. Tudo se inscreve na linguagem por que tudo é linguagem.

Daniel Bastos disse...

Caro António Daniel: obrigado pelo seu comentário estimulante e motivador. Concordo plenamente consigo e e considero igualmente que a toponímia é uma ferramenta de análise histórica estruturante. Nesse sentido, posteriormente enviarei um novo artigo sobre esta temática. Recordo aqui as palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem significa os limites do mundo"
Ao António Daniel e a todos os seguidores do Blog Montelongo “Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo”.

Anónimo disse...

Interessante sem duvida
Mas que importa ao cidadão comum, os vestigios da civilização muçulmana em Fafe, ou se há vida no planeta Marte. Se os poderosos do mundo não são capazes de chegar acordo e resolver os problemas que afligem o nosso planeta. Se há milhares de pessoas a morrer à fome em todo o mundo. O que importa é o tempo presente o aqui e agora
como diz a cantiga: pão, saude, habitação, trabalho, educação
Nós merecemos e podemos fazer deste, um mundo melhor.

Natal é fazer um gesto( ir mais além)
Quem arrica?
Um Natal de Paz

António Daniel disse...

caro anónimo, nunca se esqueça que o discernimento para resolver o presente exige um conhecimento do passado. O presente, por si só, aniquila o ser humano.

Alex disse...

Então o "Penedo dos Mouros" era utilizado pelos cristãos para se defenderem dos mouros, é isso? Já agora, vestígios arqueológicos de presença muçulmana, há algum?

MFM disse...

As noras de tirar água foram introduzidas pelos árabes quando da sua passagem pela Península e são instrumentos fixos circulares usados para captar a água do subsolo para posteriormente ser utilizada nas culturas de regadio.Em Fornelos existia uma na rotunda. No local onde antes existia a nora, está agora uma estatua com uma figura de mulher. A nora era uma ponte entre o passado e o futuro. As que ainda existem deviam ser identificas e preservadas.

Anónimo disse...

Na verdade e da forma que se fala, escrevendo, preservar as noras, como existia na rotunda, foi substituída pela estatua, sendo mais antiga, ou seja, substitui-se a nora pela sogra
Heeeeeeeeeeee

Anónimo disse...

Exatamente, começou por ser nora.
Agora já é sogra.
E deve ser preservada!?

Jesus Martinho disse...

Interessante abordagem Daniel… e corajosa até… dado o desconhecimento que temos ainda da presença moçárabe em Fafe.
Concordo com a hipótese do topónimo Fafe ter etimologia árabe, nomeadamente do étimo Falaf, nome próprio muçulmano.
Fafe tem uma história com cerca de 6 milénios, com a presença e comunidades pré-históricas que evoluíram para a metalurgia e ocuparam diversos “Castros” posteriormente romanizados. Depois do séc. IV/V, até ao inicio da Idade Média não temos ainda evidências arqueológicas seguras. Contudo ninguém acredita que tenha existido em Fafe um hiato de ocupação humana durante cerca de quatro séculos.
A investigação arqueológica em Fafe foi, até ao momento, muito tímida e apesar da sua riqueza de vestígios, são poucos os conhecimentos assentes em base científica.
Do que conheço da arqueologia fafense, e é muito… penso poder associar aqui alguns vestígios no parâmetro cronológico moçárabe: Os vestígios do Castelo Roqueiro no Penedo dos Mouros em Quinchães; o povoado do Campo das pias em Castanheira, freguesia de Travassós, onde existe uma rara necrópole familiar rupestre, que o investigador Mário Barroca atribui ao séc. VIII/IX; a necrópole do Castanhal em S. Gens parece ter uma origem pré-medieval e finalmente o “Castelo de Moreira do Rei”, uma elevação onde os vestígios de ocupação parecem não ter terminado no período romano. Para termos certezas cronológicas destes sítios, bastaria fazer escavações arqueológicas cujos resultados engrossariam o conhecimento histórico deste Município.

Anónimo disse...
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