09 maio 2008

Rui Costa em Fafe


( Rui Costa, sentado em baixo; o 4º a contar da esquerda para a direita)
11 de Maio de 2008 ficará marcado na história do futebol português como o abandono de um dos mais talentosos jogadores de futebol que Portugal e o mundo conheceu. Rui Costa, internacional português formado nas escolas do SL Benfica, com passagens pela Fiorentina e pelo Milan e emprestado à nossa A.D. Fafe em 1990/91, vai terminar a carreira no clube que o viu nascer para o mundo da bola neste Domingo. Nunca escondeu que a sua aventura por Fafe o marcou em termos humanos e profissionais e, por isso, ficamos com uma entrevista concedida por António Valença, o primeiro treinador profissional de Rui Costa, aquando a sua passagem por Fafe e que recorda alguns momentos e curiosidades dignas de nota.


" No Verão de 1990, a cidade de Fafe não passava de um ponto excessivamente distante de Lisboa no mapa de Portugal. Pelo menos para Rui Costa, habituado ao conforto do centralismo e aos mimos das camadas jovens do Benfica.
Aos 18 anos, era altura de viver a primeira experiência no mundo do futebol sénior. Sem espaço no plantel desenhado por Sven-Goran Eriksson, Rui Costa recebia com desconfiança um convite de António Valença, na altura técnico da Associação Desportiva de Fafe.
Ao Maisfutebol, aquele que se tornaria no primeiro treinador de Rui Costa enquanto futebolista sénior, recorda esses tempos do «maestro».
«Ele nem sabia onde ficava Fafe. Ficou muito indeciso perante o nosso convite. Aliás, o pai dele chegou a confessar-me que o Rui não queria vir para o Minho», relembra o técnico que, naturalmente, não desistiria à primeira do médio.
«Tinha-o visto a jogar num F.C. Porto-Benfica em juniores e fiquei encantado. Depois de muitas conversas, lá o convenci a vir à Póvoa de Varzim ver-nos a jogar num torneio de pré-época.»
A reacção de Rui Costa não poderia ter sido melhor. «Depois do jogo com o Sp. Braga, senti que já era nosso atleta. Foi ao balneário, festejou connosco o triunfo e conquistou de imediato toda a gente», sublinha.

Alcançado o improvável acordo entre o Fafe e Rui Costa, faltava perceber como reagiria o miúdo à nova realidade. Um adolescente lisboeta, isolado numa pequena cidade minhota, ao serviço de um humilde clube da II divisão tinha tudo para não dar certo.
Mas a personalidade e o talento do «maestro» contrariaram as probabilidades. No final da temporada, os números confirmaram-no: 38 jogos, seis golos e campeão do Mundo de sub-20 em Lisboa.
«Os pais dele foram inexcedíveis. Quase todas as semanas vinham a Fafe. Deram-lhe o equilíbrio que precisava. Depois, no campo, fez o que esperávamos. O campeonato era muito competitivo e o Rui cresceu muito», recorda o antigo treinador António Valença.
Mas ele já não gostava de ficar no banco de suplentes. E na única vez em que isso sucedeu, houve lágrimas. «Fomos jogar a Mirandela e decidi deixá-lo de fora. Começou a chorar e a dizer-me que era injusto. Enfim, lá se acalmou e a verdade é que entrou e decidiu tudo com um golo», conta com emoção.
E nem a verdura dos 18 anos tolheram as capacidades do antigo internacional. «Era já um jogador muito fino, com pés de veludo. Retraía-se no contacto físico, mas até nesse aspecto melhorou. E mesmo sendo o mais jovem do plantel, começou a ser ouvido com respeito por todos», vinca António Valença.

Em Fafe, a vida de Rui Costa era simples. Entre o Parque Municipal de Desportos, o seu pequeno apartamento e o café que frequentava, o jogador lá foi arranjando formas de passar o tempo.
«Juntávamo-nos todos num café da cidade e tínhamos um ambiente familiar. No fim da época, ele foi ao Campeonato do Mundo de sub-20 e muitos de nós seguiram-no em todos os jogos», afirma o antigo treinador António Valença.
Agora, só falta mesmo levar Rui Costa à cidade onde desabrochou para o futebol profissional. O jogador do Benfica nunca mais voltou a Fafe, mas em breve receberá um convite oficial para o fazer.
«Há um grupo de antigos colegas do Rui Costa que está a preparar uma festa de homenagem em Fafe. Espero que ele volte cá e reveja uma cidade que foi muito importante em determinado período da sua vida.»


In http://www.maisfutebol.iol.pt/, 29/03/2008, Pedro Cunha

1 comentário:

Antonio Daniel disse...

Era uma delícia ver Rui Costa a jogar, embora no início da época fosse mais um menino. Mas já aí se viam todas as potencialidades de um grande jogador. Por isso considero justo o convite endereçado e, nunca nos devemos esquecer, Rui Costa nunca teve qualquer tipo de vergonha de dizer que jogou em Fafe, o que não acontece com pessoas naturais da nossa cidade (aliás, é conhecida a história dos nosso emigrantes brasileiros que, mal chegavam às terras de Vera Cruz, alteravam apelido para «Guimarães».
Lembro-me que, por esta altura, a ADF havia baixado de divisão, mas mantinha um plantel muito forte: Célio (um excelente jogador brasileiro), Tenev, Figueiredo (um pouco nabo mas duro), Agostinho, etc... Depois foi o que se viu: queda!
Julgo que está na altura de repensar o futebol em Fafe. Ainda pouca gente teve coragem de dizer que era preferível termos um clube forte a nível concelhia a termos dezenas de clubes que mais não fazem do que gastar recursos financeiros (e na globalidade não devem ser poucos). Se houvesse uma conjugação de vontades, era possível fazermos um clube «jeitoso».