18 agosto 2010

A Língua e o Protocolo


Sempre que havia necessidade, desciam à vila as almas agrestes do alto do Concelho. Vinham nos seus carros de bois e com estes transportavam as agruras da realidade. Esta realidade, que actualmente gostamos de negar, marcava presença em todos os gestos e palavras. Sempre admirei esta gente. O esforço, a glória da luta face ao impiedoso tempo, fornecia-lhes legitimidade para o uso e abuso de certas palavras.
Normalmente o dizer «asneiras» cai mal. Não gostamos de ouvir um lisboeta burguês, normalmente migrante, a usar certos termos. «Foda-se» e «Caralho» é património nosso e só nas gentes que não negam a realidade fica bem o calão malcriado.
A minha Avó Florinda possuía defeitos e virtudes que a faziam uma Mulher. Uma das inúmeras virtudes, por profissionalismo mas também por ser uma idiossincrasia, consistia em receber bem essas gentes oriundas do alto do concelho. Nos idos anos 40 do século passado, refugiavam-se no Assento como primeiro poiso para a aventura na vila, geralmente para comércio de gado ou para resolução de outros problemas. Certo dia, uma mãe ciosa da sua tarefa, desconsolada pela frustrante aventura, dirigiu-se à minha avó dizendo que ao seu filho, com cerca de 7 anos, não fora possível «tirar a chapa» - vulgo radiografia – porque, nas suas responsáveis palavras, «o miúdo cagou-se». Como a prova é sempre exigida quando a realidade afecta, procurou a confirmação por parte do filho. Disse: «não foi filho, não te cagaste?» ao que o filho, educada e humildemente, como o protocolo exigia, respondeu: «caguei-me, sim, minha senhora».
Reparem na singela presença da postura educada e a correspondente realidade nua e crua. É o nosso protocolo.

António Daniel

6 comentários:

Jesus Martinho disse...

Um apontamento soberbo! curto e grosso, como deve ser.
O calão, próprio desta região nortenha, vai mantendo-se... mas quanto ao protocolo... cada vez está mais difícil "cagar" para o dito cujo.

António Daniel disse...

Jesus Martinho, obrigado pelo seu comentário. A palavra também é um património, porque não dizê-lo, arqueológico.

Madrugador disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ricardo disse...

A nossas palavras são também a nossa identidade.Esta "estória" é também a história da nossa identidade.Um belo conto e bem ilustrado.

Anónimo disse...

Estava muito calor e a subida era ingreme, para recompor as forças encostei-me ao muro aproveitar uma nesga de sombra. Uns metros mais abaixo um homem já na terceira idade, fazia o mesmo. Entretanto passou uma mulher a pedir esmola. Diz o homem," por este andar nem dá tempo de fechar a carteira. Mas dou sempre qualquer coisa, nem que seja a um bandido, que tambem os há por estas bandas". Concordei com ele, disse-lhe que fazia bem. Devemos fazer aos outros aquilo que gostamos que nos fassam a nós.O homem vira-se para mim e diz,"pela maneira como fala vejo que não é cá da terra"Respondi que não, e perguntei. Então, falo à moda de que terra? Fiquei à espera que ele disse-se, fala à moda de Fafe.Mas a resposta foi;"olhe minhota você não é, você fala à moda de Trás-Os-Montes.Comecei novamente a subir a calçada, e o desconhecido gritou mais baixo"É ou não é? Olhei para para trás, acenei-lhe e sorri.

António Daniel disse...

Exactamente, é a língua a funcionar como identidade. Infelizmente, cada vez mais usamos uma fonética comum.