10 janeiro 2010

Vestígios Pré-Históricos na cidade de Fafe


O concelho de Fafe é detentor de um conjunto de vestígios arqueológicos dignos de registo. Da Pré-história à Idade Média, são muitos os remanescentes materiais da passagem e fixação humana dispersos pelas 36 freguesias que constituem este Município.
Nos perímetros urbanos, mais sujeitos à intervenção do homem, a procura do desenvolvimento nem sempre respeita o Património, sobretudo o Arqueológico, mais sensível e tantas vezes depreciado.
O desconhecimento é, talvez, o maior inimigo deste legado ancestral que todos temos o dever de salvaguardar, mas que, infelizmente poucos valorizamos.
Em Portugal, falta ainda democratizar a Arqueologia.
A cidade de Fafe tem-se expandido e os arrabaldes rurais deram lugar a novas urbanizações. Também aqui o Património Arqueológico pagou caro o preço do desenvolvimento com a destruição de alguns vestígios.
Apesar desta exacerbada ocupação espacial, o perímetro urbano de Fafe, conserva ainda algum oásis arqueológico de grande valor científico e patrimonial. O Povoado Castrejo de Santo Ovídio, às portas da cidade, é sem duvida o seu maior bem arqueológico. Mas, anteriormente, aqui se fixaram comunidades agro-pastoris, construtores de complexas estruturas funerárias megaliticas do final da nossa Pré-história, entre o III e o II milénio a.C.
Folheando velhos jornais fafenses encontrei uma notícia do século XIX que relata a existência de um tumulo megalítico na zona da Cumieira, entretanto destruído (Jornal “O Desforço” de 23 de Maio de 1883).
Já no séc. XX o Cónego Joaquim Leite de Araújo, grande apaixonado pala arqueologia, por várias vezes referiu a importância histórica dos altos de Freiras e S. Jorge. Foi precisamente neste local que em Março de 2003, arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e eu próprio identificámos uma necrópole megalítica com cinco monumentos (mamoas). Dois destes monumentos estão localizados junto da Av. do Sol Poente, em plena malha urbana, uma delas mesmo na confluência do referido arruamento.
Na altura ficámos perplexos com o facto daquelas frágeis estruturas terem chegado aos nossos dias, numa área de forte pressão urbanística. Felizmente estas mamoas resistiram à passagem de vários milénios e lá estão à espera de ser tratadas com a dignidade que merecem.
São estes monumentos funerários enquadráveis na nossa Idade do Bronze (III e II milénio a.C.) e muito provavelmente o último testemunho da ocupação Pré-histórica na actual cidade de Fafe.

Jesus Martinho

10 comentários:

António Daniel disse...

Caro Jesus Martinho, quando designou S. Jorge referia-se ao monte de S. Jorge, onde agora existe o circuito de manutenção? De qualquer forma, não seria interessante que a CM de Fafe identificasse esse local com uma informação detalhada do monumento através de uma placa ou coisa do género. Mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho.

MFM disse...

Tempos atrás encontrei um livro muito interessante sobre a região do Vale do Ave
No referido, mencionava a existência de mamoas ou monumentos funerarios na freguesia de Fornelos.
Nessa altura perguntei a alguém e foi-me indicado uma localidade entre Fornelos e Vinhos.
Passei uma tarde de domingo a procurar e não encontrei vestígios de nada.

Anónimo disse...

Em Cepães tambem existe algo de valor arqueológico mas estas coisas não estão sinalizadas infelizmente

João Paulo disse...

Espero estar enganado, mas o que costuma acontecer com património deste tipo, é um total abandono por parte do poder central.

Jesus Martinho disse...

Caro António Daniel, o Monte de S. Jorge corresponde a uma elevação que, do cirquito de manutenção extende-se até território da freguesia de Armil, também por terras de Cepães.
A sinalização deste e outros monumentos já foi sugerida ao Pelouro da Cultura da CMF, vamos aguardar desenvolvimentos.
Mais uma vez agradeço o seu comentário sempre oportuno.

Jesus Martinho disse...

Caro MFM, talvez sem querer, tocou numa das maiores "barbari" contra o Património Arqueológico do Concelho de Fafe. O meu amigo refere-se ao lugar da Pegadinha, entre Medelo e Fornelos. Em 1983 a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, identificou 10 mamoas no local. Em 2003, altura da actualização da Carta Arqueolíogica de Fafe, elaborada por técnicos da mesma Universidade, constactou-se que a conversão daquele terreno a vinha havia arrazado por completo esta necrópole megalítica com pelo menos 10 monumentos.
Obrigado por comentar.

Jesus Martinho disse...

Ao anónimo que se refere a Cepães, digo que aquela, como tantas outras freguesias detêm vestigios arqueológicos registados: para além da conhecida ponte medieval do Cancelo, existe em Cepães um povoado de origem proto-Histórica (c. 700 anos a.C.)designado por Povoado da Retortinha, pelos vestígios de superfície que eu próprio já prospectei, depreende-se que este antigo habitat teve uma posterior influência romana.
Bem que este sítio merecia uma intervenção arqueológica.
Obrigado ao anónimo de Cepães?

Jesus Martinho disse...

João Paulo, infelizmente não se engana muito relativamente ao abandono do nosso Património pelo Poder Central... ele é, talvez, demasiadamente "central" para preservar o Património Arqueológico Nacional. Digo-lhe, contudo que todos temos responsabilidades e raramente intervimos em situações de destruição.
Na minha modesta opinião temos de ser nós, cidadãos anónimos a EXIGIR a preservação dos sítios e monumentos arqueológicos. As autarquias têm também, perante a Lei, a obrigação de salvaguardar este Património.
Fico grato pelo seu comentário.

MFM disse...

Sendo assim o local que me indicaram estava correcto.
Comecei a procurar precisamente no local onde existe a vinha sempre a descer em direcção ao ribeiro.
Nunca poderia encontrar o que já não existe
Muito obrigada.

Anónimo disse...

Certa altura da minha vida vi na TV um filme documentario acerca de um homem rico que gastou toda a sua fortuna a procurar as jóias da Helena de Tróia na Grécia Antiga. A Ilíada de Homero e os rios existentes na região eram o seu ponto de referencia. Gostei tanto do que vi que logo de seguida li a Ilíada de Homero.
Em 1984 dizia-se que andavam por aí uns arqueólogos. Nesse mesmo ano conheci um homem e a figura dele barba, sandálias, cinto de couro já velho, camisas desbotadas,em tudo correspondia à imagem que eu construi de um arqueólogo. Dias mais tarde ganhei coragem e perguntei O senhor é arqueólogo?Não sou padre!!!!!!!!!!!
E assim começou uma saga que a fazer as contas por alto levou um quarto da minha vida

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construi a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sobe o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen

Desviei-me do tema?
Ou em tudo existe um elo de ligações