24 julho 2013

Ser Independente




Não escondo que simpatizo com a candidatura independente. Se para a Junta de freguesia o meu voto está praticamente definido (voto num candidato de partido político), para a Câmara Municipal e para a Assembleia o meu voto tende (embora não seja definitivo, tenho que conhecer os programas ) para a lista independente, havendo contudo uma pessoa no Partido Socialista que merece o voto de qualquer fafense por ter sido o melhor vereador que Fafe alguma vez teve - Pompeu Miguel Martins.

Nada me liga a Parcídio Summavielle, como a qualquer outra pessoa da lista, mas reconheço-lhe muitas virtudes. Tem os seus defeitos, são fáceis de os enumerar como já fiz aqui, mas pode significar muito para Fafe, quer em termos materiais, quer em termos simbólicos. Já para não nomear o Miguel, seu irmão.

Porém, há um conjunto de narrativas dos independentes que não me cativam, nomeadamente as ideias expressas por alguns ressabiados da política. Alguém independente é alguém que sempre o foi. Sem medo de tomar uma posição, fá-lo porque considera ser essa a melhor, justificando-a devidamente. Alguém independente é aquele que se consciencializa da sua circunstância em qualquer momento da sua vida e tenha a capacidade de se interrogar, arcando com as suas responsabilidades. Não estou a defender a coerência de ideias, mas a coerência moral. Ser independente significa não olhar para o umbigo, mas ter a capacidade de olhar por cima do seu ombro. Por último, ser independente é, pelo menos nas suas exposições públicas, não possuir uma atitude maniqueísta, separando o mundo entre bons e maus, mas uma postura de argumentação racional e livre. É isto que espero dos independentes, não sei se todos os independentes sabem disto. Espero que sim!

António Daniel

23 julho 2013

Música na Rua



Arranca na noite desta quinta-feira, 25 de Julho, na Arcada, em Fafe, uma nova iniciativa promovida pela autarquia, com a designação “Música na Rua” e que tem a colaboração de grupos de jovens músicos e de artistas a título individual. O objectivo é dinamizar as noites de final de Julho e Agosto, em apresentações acústicas, para desfrute dos fafenses e dos visitantes, nas noites de Verão. Não se trata propriamente de espectáculos, mas antes de exibições informais do que cada grupo sabe ou pode proporcionar ao público que ocupa as esplanadas do centro da cidade, ou passeia pela Arcada.Às quintas-feiras à noite, actuam dois grupos e/ou artistas, sendo que em qualquer outro dia, poderão aparecer, sem marcação, para mostrar as suas produções ou recriações. A iniciativa começa com a apresentação dos jovens do Quarto C (22h00), seguidos do Progeto Aparte (23h00). Nas quintas-feiras de Agosto, aparecerão outros projectos musicais a actuar para quem queira ver e ouvir, como a Banda Funky Soul, CriativeArts, Zekexperience, Mess, Dayofthe Lords, Joe DivisionTributus, In Útero, Michel Oliveira, Duarte e Duarte e Diana e Carlos Ribeiro.
Fonte: Município de Fafe

22 julho 2013

Fogachos Argumentativos



Ainda não tive oportunidade de apreciar os programas eleitorais das várias forças que irão concorrer à Câmara Municipal. Estou mais vocacionado para os fogachos argumentativas. Deles ressaltam três argumentos que me causam uma certa urticária: 

1.
És filho do teu pai, o teu pai fez isto ou aquilo. logo, vais fazer o mesmo que o teu pai.

É claro de ver que este argumento carece de efectiva legitimidade. Nele esconde-se uma outra premissa que no fundo vai ao encontro do provérbio popular «filho de peixe sabe nadar».

Em primeiro lugar, é muito subjectivo dizer que o «pai fez isto ou aquilo». Há certamente outros que dirão que o pai fez outras coisas. Em segundo lugar, é uma desconsideração pela liberdade individual colocar o peso do passado nos ombros de quem não participou. Numa redução ao absurdo, seria dizer que um filho de um assassino, assassino será, ou um filho de um estadista, estadista será. É, pois, um argumento falacioso sem ponta por onde se possa pegar...

2.
Não és de Fafe, não possuis conhecimento de causa. Portanto, não deves ser bom candidato.

Há relação entre ser ou não de Fafe e não poder ser bom candidato? Claro que não!
É certo e evidente que uma vivência quotidiana com a realidade poderá fornecer-nos um ponto de vista muito concreto e aproximado do modus vivendi de uma comunidade. Mas os cientistas sociais sabem que, quando procedem a uma investigação de campo de observador participante, a emoção pode manchar a objectividade. Acrescente-se ao facto desse argumento ser proveniente de muitos que dele usufruíram em diferentes circunstâncias, isto é, o feitiço vira-se facilmente contra o feiticeiro. É, pois, um argumento falacioso sem ponta por onde se possa pegar.

3. Todas as pessoas devem ter uma oportunidade. Está na hora dessa oportunidade. Logo, vamos dar a oportunidade ao candidato X.

É o argumento mais atractivo e, por isso, mais difícil de rebater. Contudo a primeira premissa não me parece correcta. O que é ter oportunidades? O conceito é entendido como a abertura de perspectivas quanto a um possível futuro. Ora, o futuro a maioria das vezes surge a partir daquilo que conscientemente promovemos, ou seja, a capacidade que cada um de nós tem de alterar o rumo natural das coisas. Daí que devemos substituir «Todos devem ter uma oportunidade» por «todos os que merecem devem ter uma oportunidade».
Sim, eu sei, o que é merecer? Quem merece? Pois, isto levar-nos-ia a principiologias e aí tinha que justificar as minhas tendências ideológicas...

É pois um argumento que tem alguma ponta por onde se possa pegar. Mas não serve por ter somente «alguma ponta».

António Daniel

21 julho 2013

Varanda


A leitora do blogue, Manuela Leite, impossibilitada de «postar» esta fotografia nos comentários, solicitou-nos a sua publicação. Ei-la!



16 julho 2013

Uma Vergonha!!



É o que me apraz dizer após ver as fotografias da varanda da Câmara no dia procissão da Sra. de Antime.
Uma vergonha!
Como é possível que o PS, de forma tão descarada, utilize a presidência da Câmara para fazer campanha eleitoral e, ainda por cima, durante uma manifestação religiosa.
Permitir que nas varandas da Câmara estejam dois candidatos a Vereadores, que não passam, por enquanto, de candidatos a candidatos, e que nem sequer fazem parte de qualquer órgão autárquico (Câmara ou Assembleia) é, no mínimo, uma vergonha!
Mais uma a juntar às idas à Malafaia, às cartas aos funcionários da Câmara, ao infomail sobre o Hospital, à Revista Municipal, entre tantas outras situações.
O que se segue? Um escalonamento para participação em todas as missas e funerais? Cartões e flores em todos os baptizados, casamentos e aniversários? Funcionários do partido a ajudar os idosos a atravessar nas passadeiras?
Esta é a imagem mais exacta do quão pacóvio se pode ser na política. Estes são os exemplos que não servem o desempenho de funções públicas. Quem se cala perante atitudes destas e, pior ainda, aceita compactuar com elas, participando, não merece respeito, não deve merecer o nosso respeito.

Será que alguém ainda acredita na fábula do lobo em pele de cordeiro?

Miguel Summavielle

13 julho 2013

Nossa Srª de Antime


Apesar do meu crescente cepticismo, aprendi com a minha querida mãe o gosto pelas manifestações marianas. A sua devoção por qualquer imagem mariana, na qual a Nossa Srª de Antime ocupava lugar de relevo, intrigava-me. Percorrendo as obrigações religiosas, desde o baptizado até ao crisma, experimentei o peso das manifestações formais que lhes davam rosto, como experimentei que, sem formalismo, não há religião. Presente no quotidiano, o pecado abrangia grande parte das motivações. As deliberações tomadas obedeciam ao medo do anátema. A dúvida e a descrença sobre as formas legítimas e ilegítimas de poder eclesiástico começava a pesar nas decisões. A instituição religiosa tornara-se para mim um biopoder: a vida fora a dádiva para a morte.

O culto mariano, em contrapartida, é vida (talvez por isso a teologia católica continue a submetê-lo à divina trindade). Não é por acaso que a sua génese pagã está umbilicalmente ligada a rituais de fertilidade. Daí que o culto mariano funcione como uma espécie de catarse para os fieis católicos. Ela é esperança porque é o lado feminino da vida. Evidentemente que o milagre é indissociável do fenómeno que nos acompanha nestas festividades. Contudo, não se julgue que é isso que motiva as pessoas.

A procissão de Domingo é um paradigma de uma fé que move as pessoas. Ao contrário do que habitualmente acontece nas formalidades católicas, aí se dissipam as diferenças. Não se distinguem ricos e pobres, analfabetos ou letrados, bonitos ou feios. Talvez porque todos têm uma mãe.

António Daniel

PS: Só não entendo a sua vénia ao poder temporal!

12 julho 2013

Escola Conde Ferreira





Um grupo da sociedade civil foi criado na rede social Facebook para sensibilizar o poder e os cidadãos de Fafe relativamente ao estado degradado em que a escola está. Colocam-se aqui as fotografias que o grupo disponibilizou na sua página. Para reflectir e, acima de tudo, para nos envergonharmos.

05 julho 2013

O Duplo Disfarce de Amigos


A importância de Laurentino Dias na estratégia política e eleitoral do PS de Fafe é  incómoda e negativa. No entanto, e mais evidente será a sua influência na definição e garantia dos seus pares na lista à câmara, de forma a supostamente sentir o seu “peso” político versus poder pessoal.
Deste modo é de todo desejável e urgente ao PS de Fafe desencadear uma estratégia na opinião pública que permita, sem grandes prejuízos eleitorais, dar a indicação de que, pelo menos agora, Laurentino Dias nada tem a ver com o processo eleitoral ou, melhor dizendo, com a candidatura de Raul Cunha.
Pelos acontecimentos, a que assisti, ocorridos na última assembleia municipal e com a reserva devida da consciência pessoal dos intervenientes e dos que possam equacionar a possível premeditação dos mesmos de forma voluntária ou involuntária, podem e devem ter contribuído para o “disfarce” de desvinculação de Laurentino Dias da candidatura do PS de Fafe, uma vez que já deverá estar garantido o seu cunho pessoal na lista dos seu pares.
Os mesmos acontecimentos, não afectam, por uma lado o presidente da assembleia municipal, uma vez que a solução proposta para a escola de Golães é de bom senso e o desconforto para José Ribeiro é pacífico, uma vez que se trata de um caso isolado. Relativamente ao prejuízo político causado aos membros da junta, pode este, ainda, ser minimizado.
Resta portanto, e com as ressalvas acima referidas, a suposta “zanga” e estratégia de bastidores entre Laurentino Dias e José Ribeiro, num “duplo disfarce de amigos”. 
Deste modo, está aberto o espaço desejado para a não participação de Laurentino Dias na lista à Assembleia Municipal e a consequente não participação na campanha eleitoral, sobretudo nas freguesias, o que deveria ser desejável na candidatura do PS.
Falta saber se com disfarces, tirar de tapetes, pressões, confusões, incapacidade de afirmação do candidato e de motivação dos seus pares, em contraste com o silêncio, humildade e coerência política de Antero Barbosa em querer se afastar de tudo, conforme afirmou na sua entrevista do inicio do ano, o PS de Fafe sairá vencedor nas próximas autárquicas.
E não haverá um estilhaçar um “partir de loiça toda”, que, apesar do tempo decorrido, ainda é desejado, nem que seja em favor de uma terra a que TODOS FAZEMOS PARTE: FAFE, e da qual ninguém é dono.

Pedro Almeida  

03 julho 2013

Solidariedade e a Política

Um artigo de Hernâni Von Doellinger despertou-me para uma característica dos executivos camarários em geral e do de Fafe em particular. Próprio de um qualquer preceito comunicacional, tudo o que se executa deve ser publicitado sob pena de tudo ser omisso. A Câmara Municipal de Fafe, numa iniciativa positiva, comparticipa a presença de crianças carenciadas do Concelho num campo de férias e apoia a recuperação de habitações degradadas. Até aqui, concordo com a ajuda. Mas quando a notícia destas iniciativas se transfigura numa espécie de exibição, a solidariedade torna-se um meio. Não é que seja ingénuo e não perceba que a notícia do que se faz - até para a avaliação se efectivar - não deva ser partilhada. Mas, o que menoriza o processo político é essa mesquinhez representada quando se pretende mostrar para além do que deve ser mostrado,  tornando a solidariedade num apelo de bem-feitoria bacoca.

Acrescente-se o erro da fotografia no que se refere à entrega dos cheques para a recuperação de habitações degradadas. O mais elementar manual das boas práticas de comunicação rejeitaria a fotografia presente no site da Câmara. Quero acreditar não haver aí qualquer tipo de intenção ao colocar o Presidente da Câmara numa espécie de palanque. A dignidade ainda é um valor a prezar.

António Daniel

01 julho 2013

"Garotos"


"Neste momento não há rali de Portugal a Norte", garante Carlos Barbosa, irritado com polémicas eleitorais para a Câmara do Porto

Está em risco a realização do Rali de Portugal de 2014 no Norte e Centro do País, como era intenção da Federação Internacional do Automóvel (FIA) e do Automóvel Clube de Portugal (ACP).
Presente no Circuito da Boavista, o presidente do ACP, Carlos Barbosa, teceu duras críticas a alguns dos candidatos à presidência da Câmara Municipal do Porto, designando-os mesmo como "um bando de garotos".
"Eu acho que nem os candidatos nem o atual presidente da Câmara do Porto querem o rali no norte. O Manuel Pizarro [PS] disse que sim senhora, que enviava uma carta ao Rui Rio mas não o fez. O Rui Moreira [independente] anda a fazer comunicados e a brincar como os garotos. Eles que tenham as campanhas políticas que quiserem, mas eu não aceito ser o bobo da festa", disse Carlos Barbosa em declarações ao Porto Canal, ressalvando, no entanto, a posição do candidato do PSD Luís Filipe Menezes, o único que garantiu a realização do rali: "Menezes escreveu e disse que garantiria o rali se fosse presidente. Os outros amuaram porque ele escreveu. Irritaram-se. É um bando de garotos."
Após várias edições no Sul do País, a FIA e o ACP, organizadores desta etapa do Mundial de Ralis, entenderam como vantajoso o regresso da prova às regiões Norte e Centro, onde estão a grande maioria dos fãs da modalidade. A realização de especiais em Arganil e Fafe e o estabelecimento do Porto como base logística da prova ficam assim em risco, conforme ameaça Carlos Barbosa: "Neste momento, se me perguntar, digo que não vai haver Rali no Norte."

In www.dn.pt

30 junho 2013

Albino e Pedro



Eis a minha actual angústia: Albino ou Pedro (segmentados por ordem alfabética)?
Estas serão as últimas eleições em que colocarei o meu voto na minha terra natal. Por esse motivo, funcionará como um antes e um depois. Conservar o cartão de eleitor funcionou como conservar o vínculo simbólico à minha terra natal. Mas, desde que as mesas de voto se deslocaram para o pavilhão multiusos, muito simbolismo se perdeu. Desde já aviso que não gosto de expressar o meu voto no multiusos. Sempre preferi a velhinha escola Conde Ferreira, local onde quase sempre depositei o meu voto. Local aconchegante, propício a reencontros, a abraços e a sorrisos de ocasião. O multiusos convoca-nos para uma atmosfera impessoal, desconfortável, onde o nosso caminhar parece permanentemente violável, sujeito a múltiplos olhares e nada próprio para (re)encontros intimistas.

As eleições para a Junta de Freguesia são, na minha perspectiva, as mais importantes por albergar esse carácter intimista. São dois amigos de longa data. O Albino Costa e o Pedro Gonçalves são os dois candidatos que se perfilam para a minha última escolha. Gostei muito dos discursos do Pedro. Bem escritos, possuem as três variáveis fundamentais de qualquer discurso político: são lógicos, alavancam as vontades e revelam um homem. Quanto a Albino Costa, apesar de apresentar nas suas listas o actual Presidente da Junta, apresenta vetores importantes como a solidariedade, o empreendedorismo e o crescimento sustentável. 
Percebem agora as fotografias?
Que me desculpem os outros candidatos, mas isto é um ponto de vista, isto é, uma vista através de um ponto.

António Daniel

28 junho 2013

Ainda o Royal Center



Parece que a ideia de aproveitamento do espaço para uma qualquer infraestrutura hoteleira colhe simpatia nos meios políticos em Fafe.  Já aqui questionei a pertinência de tal desiderato, na medida em que o principal argumento - número insuficiente de camas em Fafe - me parece precipitado. Por isso, coloco aqui um comentário do conhecido empresário Ricardo Gonçalves:

«Mais do que se debater o futuro do Royal Center (parece-me unânime que a actual situação nos envergonha a todos)deveria debater-se o clima de quase perseguição ao investimento. Há deficit de camas em Fafe? É muito discutível.Quem disse isso não conhece as taxas de ocupação das camas existentes. O que há é uma deficiente coordenação da programação que será muito mais fácil de resolver pondo as instituições a comunicar entre si. Considero uma oportunidade perdida não se ter aproveitado para concentrar alguns serviços públicos, substituindo a obra de ampliação dos paços do concelho. Mas isso é passado. Não esqueçamos, ainda, que o edifício tem um proprietário e este terá sempre de ser ouvido

Cheio de bom senso, e não senso comum como os políticos nos vão habituando, este comentário mostra bem que, antes de megalomanias e projectos descabidos que só iriam prejudicar os investimentos existentes nos concelho, é importante ouvir quem tem legítimas opiniões por dominar a área.

A minha proposta é simples. Com o crescimento que algumas actividades vão tendo ao nível do domínio de serviços ligados às novas tecnologias, porque não disponibilizar espaços para estudantes fafenses ou de regiões limítrofes para desenvolvimento de projectos empresariais ligados às novas tecnologias? Porque não celebrar protocolos com as universidades da região disponibilizando-lhes meios e espaços adequados de investigação e desenvolvimento? A partir daqui, muitas outras ideias poderão germinar. Há ideias que possam iluminar os nossos políticos?

António Daniel

25 junho 2013

Sabença, senhor abade!

Cónego Leite de Araújo


No tempo em que havia padres em Portugal, Fafe tinha um senhor abade. Uma vez por semana, o senhor abade descia a minha rua para ir dizer missa na capela de ricos da Casa do Santo Velho e a minha mãe mandava-me ir ter com ele para lhe pedir sabença. Eu interrompia os deveres da escola primária e ia a correr, todo contente. Fazia fila atrás dos outros miúdos todos e, quando chegava a minha vez, lá dizia, com o respeito que me fora ensinado, "Sabença, senhor abade!", beijando a mão que me era estendida. O senhor abade fazia-me uma pequena festa na cabeça, com a mão que tinha de vago, e respondia-me "Deus te abençoe", que era o que eu queria ouvir. O senhor abade seguia o seu caminho e eu ia para casa num sino. Acreditam que aquilo me fazia feliz?
O senhor abade cheirava a tabaco e perfume. Andava sempre de batina e, no Inverno, usava uma capa negra que parecia de filme de espadachins. Com o correr dos anos, o senhor abade subiu a senhor arcipreste, pendurou a sotaina e começou a sair à rua de fato preto e cabeção, passou a cumprimentar-me de mãozada e fizeram-no senhor cónego. Cónego Leite de Araújo. Era um homem elegante, distinto, culto, bom e pobre. Era um ser humano com defeitos e extraordinário. E foi meu amigo. Não sei se Fafe tem a contabilidade em dia com a sua memória.
No tempo em que havia padres em Portugal, o senhor abade de Fafe tinha consigo ao serviço da paróquia, para além do padre Adélio que ensaiava o orfeão, dois jovens coadjutores, palavra que eu não sabia dizer mas que me fazia rir, porque imaginava que, com um título assim, aqueles dois eram padres de acender e apagar. Tanto quanto sei agora, apagaram-se quase todos os que por lá passaram. Apagaram-se como padres, quer-se dizer. Tiveram muitos filhos, foram muito felizes e casaram. Geralmente por esta ordem. Em todo o caso, a esses já eu não beijava a mão, mas pedia sabença. Tínhamos isso combinado. E eu ganhava o "Deus te abençoe" que me dava tanto jeito.

No tempo em que havia padres em Portugal, não havia Paula Bobone, graças a Deus! Por isso o beija-mão era uma coisa, por assim dizer, pouco higiénica. Porque o beijo era mesmo beijo e não a mariquice do beijo de faz de conta, a "simulação de beijo" recomendada pela etiqueta da treta. Eu pedia sabença com beija-mão também ao meu avô e à minha avó da Bomba e ao meu avô e à minha avó de Basto, gente de trabalho que tinha as mãos como calhava quando eu lá esparramava o reverencial ósculo. Sim, seria talvez pouco higiénico, mas era verdadeiro. E ainda cá estou.
Durante toda a minha vida pedi sabença. Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Aos poucos fui desfazendo a corruptela, passei pela "sabênção" até chegar ao que peço há anos: "a sua bênção". É verdade, continuo a pedir a bênção à minha mãe e aos meus tios e tias, alguns apenas um pouco mais velhos do que eu. E não é só por respeito ou porque me ensinaram em pequenino. Eu acredito nas bênçãos. Por falar nisso: sabença, senhor abade!


Hernâni Von Doellinger

23 junho 2013

Ponte do Ranha


A Ponte do Ranha sempre foi uma rua muito especial. Os indefectíveis defensores da zona da Fábrica do ferro ou da Rua de baixo, não comungarão desta opinião. Possivelmente a razão lhes assiste porque a especialidade também lhes assentava, embora não tivessem o Canedo como o seu centro. Neste ponto nevrálgico, a rua possuía em doses proporcionais a vanguarda da alcoolemia da vila, o poiso das «Minhas Putas Tristes» e a imensa generosidade das pessoas. Públicas virtudes e públicos defeitos. Tudo fora transparente. Eu pertencia à Ponte do Ranha. A memória mais presente era dos cheiros: o cheiro da mercearia do Canedo contrastava com as «tosses», os monólogos imprecisos e as palavras «peludas» oriundos do tasco; o cheiro do medo dos ruminantes na aproximação ao dia do juízo final; o cheiro do sabão rosa que se banhava nas cristalinas águas do rio. Mas havia ainda um local de romarias juvenis: o «poço da moçarada». Pela Ranha acima, dirigiamo-nos ao poço. Este poço possuía só por si a ideia de algo sem fundo, o que o tornava uma espécie de ambivalência: algo que deveria ser, simultaneamente, evitado, pelo menos no que respeita aos sonoros impedimentos maternais e experimentado, pelo menos no que diz respeito às exigências das hormonas juvenis.

A Ponte do Ranha perdeu tudo isto e ganhou muito pouco. Descaracterizada, sem as suas soleiras onde se desdenhavam vontades alheias, a Ponte do Ranha perdeu a identidade. É necessário salvá-la começando pelo caminho da Ranha.

António Daniel

20 junho 2013

Os Partidos São Para as Ocasiões


Como bom apreciador de política à moda de Fafe que sou, tenho passado os últimos tempos a degustar os aromas e sabores cozinhados pelas máquinas partidárias no concelho. Uma nota prévia, apesar de ser “bom prato”, não deixo de ter os meus pratos indefectíveis, aos quais não me dissocio.
Fazendo uma resenha da ementa dos candidatos conhecidos à data de hoje, verificamos que há três que são velhos conhecidos destas andanças (já foram candidatos á Câmara municipal) e outro candidato que concorre pela primeira vez ao cargo.
 Nos aperitivos da refeição servida lá para finais de Setembro, verificamos que “choveram” críticas relativas ao facto de o candidato do partido socialista ser natural de Guimarães. Apesar de perfeitamente legitimas, considero que o elogio da competência deve prevalecer sobre a naturalidade. Aliás, por esse país fora podem-se encontrar várias candidaturas de pessoas não naturais das autarquias a que se candidatam, como por exemplo o “magrebino” Carlos Abreu Amorim ou o “insaciável” Luís Filipe Menezes. Mais a mais, foi surpreendente ouvir o respeitável Dr. Luís Marques Mendes, mandatário da candidatura do psd, falar sobre o assunto onde referia que só faltava agora Fafe ter um presidente da câmara natural de Guimarães. É dissonante ouvir tal coisa visto que, o próprio já exerceu cargos na autarquia fafense e é natural de Azurém, Guimarães. Será que isso interferiu na sua acção política? Não deveremos olhar à competência em detrimento da naturalidade?
Além desse aperitivo dissonante, há outro que não me sai da retina e me faz pensar que os partidos são para as ocasiões. Achei estranho (ou talvez não), não vislumbrar nos outdoors da candidatura do ilustre Eugénio Marinho, uma referência ao partido que suporta a sua candidatura. Cenário idêntico ao verificado no seu “site” de candidatura. Cheguei a pensar que fosse um hábito do psd local mas, nas últimas eleições autárquicas em 2009, surgia o símbolo do partido. Puxando a cassete atrás, recorde-se que se estava no início da crise e, proliferavam no país medidas de austeridade implementadas pelo governo socialista de Sócrates. Esta situação faz-me pensar que está desvendado o mistério acerca da influência das politicas do actual (des)governo (maioritariamente social democrata) nas eleições autárquicas. Em poucas palavras, até pode nem ter interferência nenhuma mas, que há um medo latente nas hostes do psd que isso aconteça, lá isso há!
Fico, entretidamente, à espera que sejam servidos os próximos aperitivos visto que, os já ingeridos não me saciaram e, até á refeição, ainda falta bastante tempo.

João Marques

19 junho 2013

Subsídio de Férias


A Câmara Municipal de Fafe decidiu pagar o subsídio de férias aos seus funcionários. Rapidamente se fizeram sentir as vozes da discórdia. Nós somos muito assim, se estamos na merda não gostamos de estar sozinhos. O inverso também é verdade, se estamos bem, gostamos de estar sós. Ainda bem que o município pagou o subsídio, pois é bom para a economia local e dá um maior desafogo a algumas famílias. Eu gosto que os outros estejam bem, dentro da legalidade, como foi o caso. Já agora, gostaria de saber a opinião dos concorrentes às autárquicas.

António Daniel

15 junho 2013

Quando a "puta" tocava



A "puta" tocava e Fafe desatava a correr em direcção aos Bombeiros. Os homens largavam tudo: trabalho, mesa, cama, mulher e até os socos pelo caminho. Havia os que iam de bicicleta e os que apanhavam boleia de motorizada. Carros paravam para levar desgraçados vindos das lonjuras da Cumieira ou dos campos do Sabugal e já com os bofes de fora. Depois, havia o Casimiro das Caixas, que começava o dia a fazer as palavras cruzadas no jornal do Café Chinês e chegava na sua velha furgoneta.

Mas quando ela tocava era para todos. Tocava também para os curiosos, para os que iam apenas ver, saber onde era o fogo. E faziam-se úteis. Apanhavam e arrumavam as bicicletas e as motorizadas que os bombeiros largavam em pleno andamento ao chegarem ao quartel e um deles ainda tinha que ir estacionar em condições a carrinha do Casimirinho, deixada sempre à frente dos portões a estorvar a saída dos carros de incêndio.

Ela tocava e eu, miúdo, lá estava. Olhava para aqueles homens, esbaforidos, trementes, brancos como a cal, a entrarem na "primeira viatura" apenas meio vestidos, a enrodilharem-se nas calças que não enfiavam ou nas galochas que levavam ainda nas mãos, cheios de urgência para enfrentarem as chamas, e via heróis. Exactamente: heróis! Os meios eram escassos, a formação era elementar, Fafe era uma terra pequena, mas aqueles homens tinham um coração bombeiro do tamanho do mundo.

Tão grande era o coração, grande de mais para um homem só, que depois tinha que ser repartido. Ser bombeiro era coisa sanguínea, "doença" de família. Irmãos, pais e filhos, netos, tios e sobrinhos, primos, todos sofriam do mesmo bem. Creio que hoje ainda é um bocado assim.

Naquele tempo, eram os do Santo, os do António Quim (sim, o do cinema...), os Moleiros, os Costas do Assento, os Feira Velha, os Funileiros, os Quintos. Eram também o Agostinho Cachada, o Augusto Susana, o Frescaragem, que tinha lábia de leiloeiro, o Nogueira da Ponte do Ranha, que "fardava muito bem", o Zé dos Alhos, o Zé Sacristão (avô do actual comandante, cá está!), o Nelo Chapeleiro, o Chaparrinho, o Ferreira "Puta Velha", o Armando "Salazar", que era o Viagra em pessoa, o enorme Sr. Humbertino, que trabalhava para os Summavielles e já só se apresentava no dia da Festa dos Bombeiros, tal como o Joãozinho motorista, que conhecia como ninguém as manhas do Opel descapotável e apanhava todos os anos uma carraspana de tal ordem que era preciso levá-lo a casa.

Naquele tempo, ser bombeiro dava muita sede e a água era toda para apagar incêndios. De modo que, conscienciosos, os voluntários fafenses, regra geral, decilitravam no verde tinto com apreciável pertinácia. O meu avô da Bomba, que era quarteleiro e videirinho, até montou um pequeno tasco que foi um sucesso. O meu vizinho Agostinho Cachada era um dos principais clientes, mas tinha um porém: pelava-se por bagaço e quando ia para casa nunca mais lá chegava, porque, mesmo depois de o meu avô fechar o tasco, o bom do Sr. Agostinho voltava sempre para trás para beber mais um. Era certinho. Uma noite, para lhe evitar a canseira e apressar o sono, o meu avô foi atrás dele até ao Paredes, já a meio caminho, com a garrafa da aguardente escondida debaixo do capote...

Quando a sirene tocava, também as mulheres de Fafe se sobressaltavam. Era a "puta" que lhes tirava os maridos de casa, da cama. E eles iam para os braços da "outra". Os Bombeiros eram uma tremenda paixão, a "amante" perigosa que levava tudo o que queria. E elas tinham medo que, um dia, os seus homens não voltassem. Tolices de mulheres. Os heróis não voltam sempre?

Hernâni Von Doellinger

12 junho 2013

Viagem de Comboio Fafe - Guimarães: 1986



Imagem: Victor Marques
Edição: Ricardo Ferreira
Ano: 1986
Descrição: Dois dias diferentes entre Fafe e Guimarães. Um dos registos trata-se do último comboio e da última viagem entre as duas cidades.

08 junho 2013

O Sagrado e o Profano




Na página do Facebook da candidatura de Eugénio Marinho surge com destaque esta pérola do executivo camarário. Apesar de não ser colocada a data da reunião camarária, faço fé que seja verdadeira.
A ser verdade, esta exigência por parte do actual Presidente da Câmara sugere-me a ideia de, na política, não haver discernimento exigível entre o sagrado e o profano. A política é profana (pelo menos quando não se comunga da ideia de que o poder vem de Deus através do povo, tese muito desenvolvida por Montesquieu), faz inexoravelmente parte da nossa própria natureza. O sagrado permite-nos viver uma dimensão diferente. O plano sagrado é constituído pelo transcendente, uma realidade completamente outra, e pelas suas manifestações. As hierofanias, aplicando um termo de Micea Eliade, correspondem a essas manifestações que podem ser traduzidas por uma simples árvore ou uma imagem de Cristo.
Ao colocar uma placa, um político pretende eternizar-se, ao colocar uma placa num altar, o político pretende tornar-se uma hierofania. Meu Deus!
Obviamente que não convoco para aqui os habituais desabafos de Eugénio Marinho e dos seus «acólitos» reprovando o acto de colocar a placa no altar. O que me repugna é colocar a placa. 
Reconheço que sou um pouco ingénuo no que respeita a estas hierofanias políticas, vulgo placas, porque o povo gosta. O povo gosta do formalismo e da hierarquização dos títulos. Mas, numa sociedade utópica, o político mandava executar na medida em que considerava pertinente e responsabilizava-se por tal, mas sem placa. 

António Daniel