28 junho 2013

Ainda o Royal Center



Parece que a ideia de aproveitamento do espaço para uma qualquer infraestrutura hoteleira colhe simpatia nos meios políticos em Fafe.  Já aqui questionei a pertinência de tal desiderato, na medida em que o principal argumento - número insuficiente de camas em Fafe - me parece precipitado. Por isso, coloco aqui um comentário do conhecido empresário Ricardo Gonçalves:

«Mais do que se debater o futuro do Royal Center (parece-me unânime que a actual situação nos envergonha a todos)deveria debater-se o clima de quase perseguição ao investimento. Há deficit de camas em Fafe? É muito discutível.Quem disse isso não conhece as taxas de ocupação das camas existentes. O que há é uma deficiente coordenação da programação que será muito mais fácil de resolver pondo as instituições a comunicar entre si. Considero uma oportunidade perdida não se ter aproveitado para concentrar alguns serviços públicos, substituindo a obra de ampliação dos paços do concelho. Mas isso é passado. Não esqueçamos, ainda, que o edifício tem um proprietário e este terá sempre de ser ouvido.»

Cheio de bom senso, e não senso comum como os políticos nos vão habituando, este comentário mostra bem que, antes de megalomanias e projectos descabidos que só iriam prejudicar os investimentos existentes nos concelho, é importante ouvir quem tem legítimas opiniões por dominar a área.

A minha proposta é simples. Com o crescimento que algumas actividades vão tendo ao nível do domínio de serviços ligados às novas tecnologias, porque não disponibilizar espaços para estudantes fafenses ou de regiões limítrofes para desenvolvimento de projectos empresariais ligados às novas tecnologias? Porque não celebrar protocolos com as universidades da região disponibilizando-lhes meios e espaços adequados de investigação e desenvolvimento? A partir daqui, muitas outras ideias poderão germinar. Há ideias que possam iluminar os nossos políticos?

António Daniel

25 junho 2013

Sabença, senhor abade!

Cónego Leite de Araújo


No tempo em que havia padres em Portugal, Fafe tinha um senhor abade. Uma vez por semana, o senhor abade descia a minha rua para ir dizer missa na capela de ricos da Casa do Santo Velho e a minha mãe mandava-me ir ter com ele para lhe pedir sabença. Eu interrompia os deveres da escola primária e ia a correr, todo contente. Fazia fila atrás dos outros miúdos todos e, quando chegava a minha vez, lá dizia, com o respeito que me fora ensinado, "Sabença, senhor abade!", beijando a mão que me era estendida. O senhor abade fazia-me uma pequena festa na cabeça, com a mão que tinha de vago, e respondia-me "Deus te abençoe", que era o que eu queria ouvir. O senhor abade seguia o seu caminho e eu ia para casa num sino. Acreditam que aquilo me fazia feliz?
O senhor abade cheirava a tabaco e perfume. Andava sempre de batina e, no Inverno, usava uma capa negra que parecia de filme de espadachins. Com o correr dos anos, o senhor abade subiu a senhor arcipreste, pendurou a sotaina e começou a sair à rua de fato preto e cabeção, passou a cumprimentar-me de mãozada e fizeram-no senhor cónego. Cónego Leite de Araújo. Era um homem elegante, distinto, culto, bom e pobre. Era um ser humano com defeitos e extraordinário. E foi meu amigo. Não sei se Fafe tem a contabilidade em dia com a sua memória.
No tempo em que havia padres em Portugal, o senhor abade de Fafe tinha consigo ao serviço da paróquia, para além do padre Adélio que ensaiava o orfeão, dois jovens coadjutores, palavra que eu não sabia dizer mas que me fazia rir, porque imaginava que, com um título assim, aqueles dois eram padres de acender e apagar. Tanto quanto sei agora, apagaram-se quase todos os que por lá passaram. Apagaram-se como padres, quer-se dizer. Tiveram muitos filhos, foram muito felizes e casaram. Geralmente por esta ordem. Em todo o caso, a esses já eu não beijava a mão, mas pedia sabença. Tínhamos isso combinado. E eu ganhava o "Deus te abençoe" que me dava tanto jeito.

No tempo em que havia padres em Portugal, não havia Paula Bobone, graças a Deus! Por isso o beija-mão era uma coisa, por assim dizer, pouco higiénica. Porque o beijo era mesmo beijo e não a mariquice do beijo de faz de conta, a "simulação de beijo" recomendada pela etiqueta da treta. Eu pedia sabença com beija-mão também ao meu avô e à minha avó da Bomba e ao meu avô e à minha avó de Basto, gente de trabalho que tinha as mãos como calhava quando eu lá esparramava o reverencial ósculo. Sim, seria talvez pouco higiénico, mas era verdadeiro. E ainda cá estou.
Durante toda a minha vida pedi sabença. Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Aos poucos fui desfazendo a corruptela, passei pela "sabênção" até chegar ao que peço há anos: "a sua bênção". É verdade, continuo a pedir a bênção à minha mãe e aos meus tios e tias, alguns apenas um pouco mais velhos do que eu. E não é só por respeito ou porque me ensinaram em pequenino. Eu acredito nas bênçãos. Por falar nisso: sabença, senhor abade!


Hernâni Von Doellinger

23 junho 2013

Ponte do Ranha


A Ponte do Ranha sempre foi uma rua muito especial. Os indefectíveis defensores da zona da Fábrica do ferro ou da Rua de baixo, não comungarão desta opinião. Possivelmente a razão lhes assiste porque a especialidade também lhes assentava, embora não tivessem o Canedo como o seu centro. Neste ponto nevrálgico, a rua possuía em doses proporcionais a vanguarda da alcoolemia da vila, o poiso das «Minhas Putas Tristes» e a imensa generosidade das pessoas. Públicas virtudes e públicos defeitos. Tudo fora transparente. Eu pertencia à Ponte do Ranha. A memória mais presente era dos cheiros: o cheiro da mercearia do Canedo contrastava com as «tosses», os monólogos imprecisos e as palavras «peludas» oriundos do tasco; o cheiro do medo dos ruminantes na aproximação ao dia do juízo final; o cheiro do sabão rosa que se banhava nas cristalinas águas do rio. Mas havia ainda um local de romarias juvenis: o «poço da moçarada». Pela Ranha acima, dirigiamo-nos ao poço. Este poço possuía só por si a ideia de algo sem fundo, o que o tornava uma espécie de ambivalência: algo que deveria ser, simultaneamente, evitado, pelo menos no que respeita aos sonoros impedimentos maternais e experimentado, pelo menos no que diz respeito às exigências das hormonas juvenis.

A Ponte do Ranha perdeu tudo isto e ganhou muito pouco. Descaracterizada, sem as suas soleiras onde se desdenhavam vontades alheias, a Ponte do Ranha perdeu a identidade. É necessário salvá-la começando pelo caminho da Ranha.

António Daniel

20 junho 2013

Os Partidos São Para as Ocasiões


Como bom apreciador de política à moda de Fafe que sou, tenho passado os últimos tempos a degustar os aromas e sabores cozinhados pelas máquinas partidárias no concelho. Uma nota prévia, apesar de ser “bom prato”, não deixo de ter os meus pratos indefectíveis, aos quais não me dissocio.
Fazendo uma resenha da ementa dos candidatos conhecidos à data de hoje, verificamos que há três que são velhos conhecidos destas andanças (já foram candidatos á Câmara municipal) e outro candidato que concorre pela primeira vez ao cargo.
 Nos aperitivos da refeição servida lá para finais de Setembro, verificamos que “choveram” críticas relativas ao facto de o candidato do partido socialista ser natural de Guimarães. Apesar de perfeitamente legitimas, considero que o elogio da competência deve prevalecer sobre a naturalidade. Aliás, por esse país fora podem-se encontrar várias candidaturas de pessoas não naturais das autarquias a que se candidatam, como por exemplo o “magrebino” Carlos Abreu Amorim ou o “insaciável” Luís Filipe Menezes. Mais a mais, foi surpreendente ouvir o respeitável Dr. Luís Marques Mendes, mandatário da candidatura do psd, falar sobre o assunto onde referia que só faltava agora Fafe ter um presidente da câmara natural de Guimarães. É dissonante ouvir tal coisa visto que, o próprio já exerceu cargos na autarquia fafense e é natural de Azurém, Guimarães. Será que isso interferiu na sua acção política? Não deveremos olhar à competência em detrimento da naturalidade?
Além desse aperitivo dissonante, há outro que não me sai da retina e me faz pensar que os partidos são para as ocasiões. Achei estranho (ou talvez não), não vislumbrar nos outdoors da candidatura do ilustre Eugénio Marinho, uma referência ao partido que suporta a sua candidatura. Cenário idêntico ao verificado no seu “site” de candidatura. Cheguei a pensar que fosse um hábito do psd local mas, nas últimas eleições autárquicas em 2009, surgia o símbolo do partido. Puxando a cassete atrás, recorde-se que se estava no início da crise e, proliferavam no país medidas de austeridade implementadas pelo governo socialista de Sócrates. Esta situação faz-me pensar que está desvendado o mistério acerca da influência das politicas do actual (des)governo (maioritariamente social democrata) nas eleições autárquicas. Em poucas palavras, até pode nem ter interferência nenhuma mas, que há um medo latente nas hostes do psd que isso aconteça, lá isso há!
Fico, entretidamente, à espera que sejam servidos os próximos aperitivos visto que, os já ingeridos não me saciaram e, até á refeição, ainda falta bastante tempo.

João Marques

19 junho 2013

Subsídio de Férias


A Câmara Municipal de Fafe decidiu pagar o subsídio de férias aos seus funcionários. Rapidamente se fizeram sentir as vozes da discórdia. Nós somos muito assim, se estamos na merda não gostamos de estar sozinhos. O inverso também é verdade, se estamos bem, gostamos de estar sós. Ainda bem que o município pagou o subsídio, pois é bom para a economia local e dá um maior desafogo a algumas famílias. Eu gosto que os outros estejam bem, dentro da legalidade, como foi o caso. Já agora, gostaria de saber a opinião dos concorrentes às autárquicas.

António Daniel

15 junho 2013

Quando a "puta" tocava



A "puta" tocava e Fafe desatava a correr em direcção aos Bombeiros. Os homens largavam tudo: trabalho, mesa, cama, mulher e até os socos pelo caminho. Havia os que iam de bicicleta e os que apanhavam boleia de motorizada. Carros paravam para levar desgraçados vindos das lonjuras da Cumieira ou dos campos do Sabugal e já com os bofes de fora. Depois, havia o Casimiro das Caixas, que começava o dia a fazer as palavras cruzadas no jornal do Café Chinês e chegava na sua velha furgoneta.

Mas quando ela tocava era para todos. Tocava também para os curiosos, para os que iam apenas ver, saber onde era o fogo. E faziam-se úteis. Apanhavam e arrumavam as bicicletas e as motorizadas que os bombeiros largavam em pleno andamento ao chegarem ao quartel e um deles ainda tinha que ir estacionar em condições a carrinha do Casimirinho, deixada sempre à frente dos portões a estorvar a saída dos carros de incêndio.

Ela tocava e eu, miúdo, lá estava. Olhava para aqueles homens, esbaforidos, trementes, brancos como a cal, a entrarem na "primeira viatura" apenas meio vestidos, a enrodilharem-se nas calças que não enfiavam ou nas galochas que levavam ainda nas mãos, cheios de urgência para enfrentarem as chamas, e via heróis. Exactamente: heróis! Os meios eram escassos, a formação era elementar, Fafe era uma terra pequena, mas aqueles homens tinham um coração bombeiro do tamanho do mundo.

Tão grande era o coração, grande de mais para um homem só, que depois tinha que ser repartido. Ser bombeiro era coisa sanguínea, "doença" de família. Irmãos, pais e filhos, netos, tios e sobrinhos, primos, todos sofriam do mesmo bem. Creio que hoje ainda é um bocado assim.

Naquele tempo, eram os do Santo, os do António Quim (sim, o do cinema...), os Moleiros, os Costas do Assento, os Feira Velha, os Funileiros, os Quintos. Eram também o Agostinho Cachada, o Augusto Susana, o Frescaragem, que tinha lábia de leiloeiro, o Nogueira da Ponte do Ranha, que "fardava muito bem", o Zé dos Alhos, o Zé Sacristão (avô do actual comandante, cá está!), o Nelo Chapeleiro, o Chaparrinho, o Ferreira "Puta Velha", o Armando "Salazar", que era o Viagra em pessoa, o enorme Sr. Humbertino, que trabalhava para os Summavielles e já só se apresentava no dia da Festa dos Bombeiros, tal como o Joãozinho motorista, que conhecia como ninguém as manhas do Opel descapotável e apanhava todos os anos uma carraspana de tal ordem que era preciso levá-lo a casa.

Naquele tempo, ser bombeiro dava muita sede e a água era toda para apagar incêndios. De modo que, conscienciosos, os voluntários fafenses, regra geral, decilitravam no verde tinto com apreciável pertinácia. O meu avô da Bomba, que era quarteleiro e videirinho, até montou um pequeno tasco que foi um sucesso. O meu vizinho Agostinho Cachada era um dos principais clientes, mas tinha um porém: pelava-se por bagaço e quando ia para casa nunca mais lá chegava, porque, mesmo depois de o meu avô fechar o tasco, o bom do Sr. Agostinho voltava sempre para trás para beber mais um. Era certinho. Uma noite, para lhe evitar a canseira e apressar o sono, o meu avô foi atrás dele até ao Paredes, já a meio caminho, com a garrafa da aguardente escondida debaixo do capote...

Quando a sirene tocava, também as mulheres de Fafe se sobressaltavam. Era a "puta" que lhes tirava os maridos de casa, da cama. E eles iam para os braços da "outra". Os Bombeiros eram uma tremenda paixão, a "amante" perigosa que levava tudo o que queria. E elas tinham medo que, um dia, os seus homens não voltassem. Tolices de mulheres. Os heróis não voltam sempre?

Hernâni Von Doellinger

12 junho 2013

Viagem de Comboio Fafe - Guimarães: 1986



Imagem: Victor Marques
Edição: Ricardo Ferreira
Ano: 1986
Descrição: Dois dias diferentes entre Fafe e Guimarães. Um dos registos trata-se do último comboio e da última viagem entre as duas cidades.

08 junho 2013

O Sagrado e o Profano




Na página do Facebook da candidatura de Eugénio Marinho surge com destaque esta pérola do executivo camarário. Apesar de não ser colocada a data da reunião camarária, faço fé que seja verdadeira.
A ser verdade, esta exigência por parte do actual Presidente da Câmara sugere-me a ideia de, na política, não haver discernimento exigível entre o sagrado e o profano. A política é profana (pelo menos quando não se comunga da ideia de que o poder vem de Deus através do povo, tese muito desenvolvida por Montesquieu), faz inexoravelmente parte da nossa própria natureza. O sagrado permite-nos viver uma dimensão diferente. O plano sagrado é constituído pelo transcendente, uma realidade completamente outra, e pelas suas manifestações. As hierofanias, aplicando um termo de Micea Eliade, correspondem a essas manifestações que podem ser traduzidas por uma simples árvore ou uma imagem de Cristo.
Ao colocar uma placa, um político pretende eternizar-se, ao colocar uma placa num altar, o político pretende tornar-se uma hierofania. Meu Deus!
Obviamente que não convoco para aqui os habituais desabafos de Eugénio Marinho e dos seus «acólitos» reprovando o acto de colocar a placa no altar. O que me repugna é colocar a placa. 
Reconheço que sou um pouco ingénuo no que respeita a estas hierofanias políticas, vulgo placas, porque o povo gosta. O povo gosta do formalismo e da hierarquização dos títulos. Mas, numa sociedade utópica, o político mandava executar na medida em que considerava pertinente e responsabilizava-se por tal, mas sem placa. 

António Daniel

07 junho 2013

Começou a Campanha



Com a apresentação da candidatura dos “Independentes por Fafe”, pode considerar-se que começou, de facto, a campanha para as próximas eleições autárquicas no nosso concelho. Os outdoors estão na rua e já me deram que pensar.
Começo, desde logo, por declarar que tenho responsabilidades políticas no movimento dos “Independentes por Fafe” pelo que sou, e serei, faccioso, sendo natural que notas sejam tendenciosas, ainda que reproduzindo factos reais.
Chamo a atenção para a curiosidade dos cartazes de campanha do PS e PSD não utilizarem o rosa e laranja oficiais. Escolheram outras cores e tons suaves, procurando, quem sabe, fazer esquecer a ligação dos candidatos às responsabilidades governativas passadas e presentes das forças partidárias que representam.
Recebi, na passada semana, no meu correio, um boletim informativo enviado pelo PSD. Um desdobrável relatando as visitas do candidato ( e seus colegas de partido) a diversas instituições do concelho (e distrito), cheio de fotografias que tentam utilizar, ainda que disfarçadamente, a imagem dos mesmos para proveito próprio. Terão perguntado se podiam utilizar a imagem dessas personalidades? É legítimo fazê-lo? Curiosamente, no ano passado, nós, os Independentes por Fafe, fizemos visitas a a uma grande parte das instituições do Concelho, com o objectivo de nos inteirarmos dos seus problemas, necessidades e projectos futuros. Não levámos a imprensa connosco e, muito menos, divulgámos o conteúdo das visitas, até porque as instituições não devem, em qualquer circunstância, ser politizadas.
Na minha opinião, o Dr. Raúl Cunha, sendo eleito, não cumprirá o mandato. Estou convencido que o seu objectivo não é comandar os desígnios de Fafe, antes obter uma posição partidária forte (para a qual a sua condição de independente não contribui…) na corrida à indigitação para futuro Administrador Regional de Saúde. O governo irá cair (mais cedo do que tarde!) e o PS irá reocupar os cargos de nomeação política com gente das suas fileiras. Veremos o que o tempo nos reserva.
Como nota final, volto aos “outdoors” e às fotografias dos candidatos Socialista e Social-Democrata. Ambas retocadas. Seja para corrigir o olhar ou para inserir um “pin” de Fafe, demonstram o cuidado que os responsáveis pelas campanhas estão a pôr na forma como apelam aos eleitores. Sinal de preocupação?

Miguel Summavielle


06 junho 2013

Royal Center.




Nas redes sociais, os responsáveis pela candidatura do PSD à Câmara Municipal têm vindo a defender uma solução para este edifício que é um autêntico exemplo de fealdade urbanística. A solução passa por uma unidade hoteleira. Diz José Baptista que a hotelaria «é uma área claramente deficiente em Fafe». Como disse?
Há uma certeza e muitas dúvidas: Em primeiro lugar, que base objectiva leva José Baptista a afirmar que existe défice hoteleiro em Fafe? Em segundo lugar, quem irá investir? Em terceiro lugar, haverá investimento camarário? A certeza é: para o PSD o edifício já faz indelevelmente parte dos destinos fafenses.

António Daniel

04 junho 2013

Slogans e Matrizes


«Renovar com segurança» é um slogan que diz tudo. O seu objectivo prende-se com a cativação da geração mais velha avessa a grandes mudanças e com todos os que estão satisfeitos. Note-se que a primeira palavra é «renovar» mas com a «segurança» mais saliente. Apesar de tudo, bem que podia ser «segurança renovada», possivelmente seria mais fiel aos propósitos. Contudo, surge um segundo slogan «Paixão por Fafe». Não percebo muito bem a simbiose entre a paixão e a segurança. O pathos é, por natureza, emotivo. Rasga a monotonia, suplanta o amor. A paixão é sexo e o sexo, como canta a Rita, é carnaval. Vejo o PS muito carnal, mas a carne é devorada. Devorar ou ser devorado, eis a questão.

O PSD lança-nos o tempo. «Chegou a Hora» apresenta-nos uma inevitabilidade. É um slogan muito darwinista porque está querer aproveitar-se do mais fraco, mas também freudiano com a presença do símbolo fálico (vulgo seta) do PSD. «Chegou a Hora» dá-nos a sensação da morte e do renascimento, tomar o lugar de... O problema é que Cronos devorava os seus próprios filhos. É um slogan arriscado que pode significar o princípio ou o fim. O tempo é um pequeno instante. Porém, caso o PSD não alcance o instante... Mas o grande segredo está em conjugar o princípio darwinista com Freud. A libido dá-se bem com o instante.

«Todos Somos Fafe» é uma frase «cheia». Cabe lá tudo, mas pode parecer que pouco lá caiba. Depende! É uma espécie de apelo, de chamamento, ninguém fica de fora. Esta ideia de conjunto é facilmente confundida com a «massa». Ora, sabemos que nem tudo cabe. No slogan este «todos» é conjugado com uma mão que mais parece uma espécie de stop. Parece-me sub-reptícia a mensagem porque é uma camuflada do slogan do PSD. Chega de PS, diz entrelinhas. Stop, paremos neste instante! Mas este «chamamento» não é assertivo. A mão não possui contornos, não está definida nas agruras da vida, não tem calos, é simplesmente uma mão pouco definida. O que sobra de indefinição escasseia de calo. Além disso, é a imagem mais passível de sugestões, quanto mais não seja ao imaginarmos a proeminência do dedo do meio face ao agachamento dos outros. Toma!!!

Conclusão: a candidatura do PS é feminina, é candura e, simultaneamente, paixão (o diamante). Procura a perfeição da segurança. O PSD e «Os Independentes» são fálicos, procuram o vigor, de forma  mais explícita o PSD (o que já se esperava) e de modo mais implícito «Os independentes».

Resta-nos esperar pelas outras forças partidárias. Mas quem espera... desespera.

António Daniel

03 junho 2013

Os Independentes. Só Agora?


Finalmente surgiu a candidatura dos Independentes Por Fafe. Pensei um pouco sobre a razão de ser da candidatura se apresentar depois das duas anteriores. Considerações positivas ou negativas podem ser escrutinadas. Por mim, creio que a balança pende mais para o lado favorável. Na Psicologia aprende-se, no que respeita à retenção de informação, que, em geral, as pessoas fixam mais as que são dadas em último lugar. Simplificando, caso apresentemos um lista com a sequência medroso, meigo, inteligente, é comum sobrevalorizar-se a característica de inteligente. Se a sequência fosse a inversa, o adjectivo medroso sobrepunha-se às restantes. É possível que a candidatura tenha pensado nisso, tudo dependerá da sua força. Caso a vertente comunicacional seja forte, facilmente a candidatura de Eugénio Marinho, com todas as suas iniciativas, seja menorizada, como é o exemplo daqueles «estados gerais» à volta do empreendedorismo (uma ideia de Guterres que as gentes do PSD sempre menorizaram).  Contudo, Eugénio Marinho está forte. As suas iniciativas tentam conjugar duas vertentes fundamentais: a responsabilidade e a irreverência. Por um lado pretende mostrar-se como voz da juventude (?), por outro reclama-se como alguém ponderado capaz de ouvir no sentido de tomar as decisões mais correctas. O PS que se cuide. Ou que se cuidem os outros pelas evidentes divisões.
Os próximos tempos serão muito interessantes. Como cidadãos fafenses devemos aproveitar muito bem!

António Daniel

31 maio 2013

15.º Portugal de Lés-a-Lés 2013

 
Maratona motociclista que reúne pessoas das mais variadas origens, com um limite de mil inscrições, começa este ano em Fafe. Momento importante para a promoção de Fafe. Com início na Praça 25 de Abril, irá percorrer nesse dia várias zonas do concelho, estendendo-se depois até ao Algarve (Aljezur). Mais informações: http://www.fmotoportugal.pt/artigo.php?id=179501#sthash.ohrDeSPP.dpbs

29 maio 2013

O Meu Cinema Paraíso

Parece o reclame de um salão de cabeleiro unissexo. "Sansão & Dalila". Desinteresso-me primeiro, mas ele está ali mesmo à minha frente, colado na carruagem do metro, e de repente começa a exercer sobre mim um fascínio inesperado e misterioso. Olho melhor, a ver se percebo o que se passa comigo. Ah!, afinal é a ópera de Camille Saint-Saëns, que vai à cena no Coliseu do Porto. É "Sansão e Dalila". O e não é comercial, é apenas truque gráfico, modernice. Pronto, está tudo esclarecido.
Mas não estava. O anúncio continuava a chamar por mim. Que raio de poder hipnótico poderia ter aquele pedaço de papel plastificado? As palavras mágicas não paravam de ecoar na minha cabeça, "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila"... Resolvi-me, levantei-me do meu lugar, dei dois passos em frente, tirei os óculos, semicerrei os olhos e tentei espreitar para dentro do reclame. O metro apitou, uma, duas, três vezes, e o reclame abriu-se num clarão como se fosse o meu espelho de Alice, puxando-me pelos colarinhos e levando-me aos confins do meu passado, numa viagem instantânea até ao tempo em que eu era um miúdo.
Éramos todos uns miúdos. E íamos em bando até à porta da D. Laura Summavielle, filha, que morava à beira da Igreja Nova. Os Summavielles (Sumaviéis, na versão fafense) eram os donos do Teatro-Cinema de Fafe, do Cinema. E nós íamos pedir à D. Laura, que devia ser o melhor coração da família e para mim era o melhor coração do mundo, que nos levasse a ver o filme de graça. E a boa senhora levava.
A coisa tinha o seu ritual. Esperar à porta do cinema não valia, tínhamos que ir mesmo a casa da D. Laura, que também não era longe. Éramos para aí uns seis ou sete, às vezes menos, consoante o lado para que tinham acordado os pais de cada qual, e devíamos lá chegar pelo menos com uma boa meia hora de avanço em relação à hora de saída prevista da senhora. Chegávamos e esperávamos. Não se batia à porta, não se tocava na campainha, esperávamos apenas, calados como ratos, porque o mais pequeno ruído podia deitar tudo a perder.
A senhora saía, encarava-nos sempre com um grande sorriso e nós continuávamos sem dizer nada, nem era preciso. Púnhamo-nos atrás dela, em fila, como pintainhos seguindo a mãe galinha, e, agora que penso nisto, acho que devia ter sido uma coisa bonita de se ver, aquele extraordinário grupo a atravessar o Largo da Igreja e a descer até ao Cinema, na máxima compostura e no mais religioso silêncio.
A D. Laura entrava e nós ficávamos cá fora, bem guardados pelo Sr. Leitão porteiro, que era mau como as cobras e vestia um capote castanho, com botões dourados e gola vermelha, que até parecia um general soviético, embora na bilheteira é que estivesse o Sr. Castro, comunista e alfaiate.
Perdíamos os desenhos animados, perdíamos os "documentários", mas na horinha do arranque do filme a sério vinha a ordem da D. Laura e imediatamente desatávamos a correr Cinema acima, dois andares a bater chancas em chão de soalho com escarradores, numa trovoada que quase deitava a casa abaixo, até chegarmos ao nosso sítio. Só ali voltávamos a portar-nos bem, sempre perante o olhar bondoso e compreensivo da nossa benfeitora, que, do seu camarote ao lado da cabina de projecção do Sr. Reinaldo Pires, nos lançava mais um sorriso, com o dedo de chiu sobre os lábios finos.
O nosso sítio era uma frisa e cheirava a veludo velho e tabaco. Quase que pertencíamos ao filme. O som dos altifalantes entrava-nos pelo corpo dentro, estremecia-nos, eu era do tamanho dum buraco do nariz do Maciste e tinha que me afastar para não ser sugado. Foi ali que eu conheci pessoalmente o Ursus, o Spartacus, o Ben-Hur e o Hércules e podem crer que aqueles cenários de papelão só pareciam de papelão. Eu sei, porque estive nos filmes. Fui eu que ajudei o Sansão a dizer "morra Sansão e todos os que aqui estão", para eu e ele nos vingarmos da traidora da Dalila e acabarmos com o filme logo ali, porque aquilo não se faz, e não me venham dizer que ele não disse nada disto.
Perguntassem ao "Sandim". Ele é que ia à estação de comboios "buscar os artistas", num carrinho com rodas de madeira. Mas não trazia os beijos todos. Não cabiam nas bobinas, decerto. As cópias dos filmes eram velhas, cheias de cortes, no melhor e mais quentinho passavam sempre à frente. Como o Jornal da Igreja Nova trazia uma sinopse das películas do fim-de-semana, nós achávamos que o Sr. Arcipreste fazia um visionamento prévio e culpávamo-lo por aquele imperdoável acto de censura. Mal eu sabia que ainda havia de ser feito um filme sobre esta história, mas em italiano.
No meu Cinema, no tempo em que o que eu queria era crescer para ver filmes "para maiores de 17", havia também umas senhoras da Rua de Baixo e de Santo Ovídio que faziam de arrumadoras e tomavam conta do buffet, onde serviam gasosas, laranjadas, café de cafeteira e rebuçados mulatos. Ao intervalo, enquanto o ardina entrava plateia dentro com a edição do Norte Desportivo de domingo à noite, já com os resultados e relatos dos jogos todos, os espectadores recebiam umas senhas para irem lá fora tomar café em condições.
No meu Cinema liam-se as legendas em voz alta para os analfabetos. O respeito e a, como hoje se diria, segurança eram zelados pelo Senhor Barroco, pelos Sr. José e Sr. António do Santo e pelo Sr. António Quim, que eu sempre confundi com o outro, o de "Zorba, o Grego". Foi na companhia desta gente que eu cresci. Mal comecei a ganhar, passei a ter bilhete reservado para todas as sessões e, depois do 25 de Abril, até vi o "Último Tango em Paris". Duas vezes.

Deixei Fafe no início da década de 1980 e o meu Cinema entrou em ruína. Pensei que outros tivessem ficado a tomar conta, mas enganei-me. Depois de 25 anos de inactividade, muita politiquice e um impressionante trabalho de recuperação, o Teatro-Cinema de Fafe reabriu portas em 2009, sem Maciste, sem Sansão nem Dalila, sem o Sr. José do Santo e sem a D. Laura Summavielle. Já lá não estão, já cá não estão. O novo Teatro-Cinema de Fafe, que só conheço por fora, funciona agora como entreposto cultural camarário. O que é certamente aplaudível e tem muito mais cagança, mas não é a mesma coisa.

Hernâni Von Doellinger.

http://tarrenego.blogspot.pt/2012/04/o-meu-cinema-paraiso.html#comment-form

21 maio 2013

Geocaching

Não querendo correr o risco de soar como um certo anúncio publicitário e apesar de ser ainda uma jovem, lembro-me perfeitamente do tempo em que não havia tecnologia, nomeadamente o telemóvel, a internet e o GPS, que hoje fazem já parte das nossas vidas. Sem Facebook e outras redes sociais, sem máquinas digitais nem internet para "navegar", recorri frequentemente, na minha adolescência, a jogos  tradicionais para passar o tempo e me divertir na companhia de amigos.
Se, por um lado, o "boom" tecnológico que presenciámos em meados dos anos 90, trouxe a sensação de que hoje em dia vivemos de olhos colados em ecrãs e a ideia de um bom jogo está intimamente ligada com a ideia de estar sentado e imóvel, em frente a uma TV ou PC, mergulhados em fios e comandos cheios de botões, completamente alheados do mundo que nos rodeia; por outro lado, será inegável que a tecnologia nos trouxe um conforto e um outro tipo de divertimento ao qual não teríamos acesso se essa tecnologia simplesmente não existisse. Desta forma, apesar de reconhecerem os óbvios benefícios da evolução tecnológica, muitos julgam que o impacto negativo que ela tem nas nossas vidas será um mal necessário - a vida sedentária, os elevados índices de obesidade, a abstinência de exercício físico e privilegiar o mundo virtual em detrimento do mundo real.
Para contrariar esta ideia tive, há pouco tempo, contacto com algo que me transportou para os inícios da minha adolescência - um jogo de caça ao tesouro. Este não é o jogo tradicional de caça ao tesouro (esse já todos conhecem) mas sim um aproveitamento dessa ideia quase primitiva que todos temos, combinada com a tecnologia do presente. Deram-lhe o nome de Geocaching.
O Geocaching (ou Cache Hunt) consiste, de forma básica, na criação de caches (caixas, pacotes ou qualquer tipo de recipiente, das mais variadas formas e tamanhos) que são escondidas em sítios específicos. Os participantes, através de coordenadas de GPS divulgadas através de um site na internet, têm como objetivo descobrir essas caches, registar lá o seu nome (ou alcunha) para que possam provar que a descobriram e voltar a guardá-la, no mesmo sítio, para futuros participantes.
Confesso que me senti algo envergonhada por conhecer este jogo há tão pouco tempo, uma vez que já existe uma enorme comunidade envolvida - principalmente de jovens - tanto a nível mundial, como também ao nível do nosso país e do nosso concelho. È notável o número de pessoas que participam  nesta atividade lúdica bem como o seu grau de dedicação a um jogo que, embora possa não parecer, vicia todos aqueles que nele participam. Começa-se muitas das vezes por um acaso, porque se tem um amigo que já participou ou porque se ouviu falar que era interessante, mas depois torna-se numa alucinante e divertida aventura a que ninguém quer faltar.
Em Fafe existe já uma comunidade muito significativa de "caçadores de tesouros" que participam com empenho neste novo conceito e com ele dão a conhecer o Concelho e a nossa cultura local. A colocação de caches em sítios emblemáticos da maioria das freguesias de Fafe em conjunto com a descrição histórico-cultural daquele local, fazem do Geocaching uma combinação perfeita daquilo que de melhor a tecnologia nos pode proporcionar. Assim, parece-me que os jovens começam a convencer-se de que para se divertirem não precisam necessariamente de estarem sentados em frente ao computador ou à TV e que podem ser conhecedores da História e património locais sem terem necessariamente que estudar sobre esses assuntos. É uma aprendizagem subtil e divertida que, precisamente por isso, se entranha facilmente nas mentes e nas vidas dos participantes.
Com os dias de Verão que estão aí a chegar, aconselho vivamente a todos os fafenses, dos 8 aos 80, a experimentarem este "jogo" - vão utilizar a tecnologia em prol de uma saudável e produtiva aventura e vão conhecer muito do património do nosso concelho. Sozinhos ou acompanhados, com espírito competitivo ou apenas para passar uma boa tarde, esta combinação de tradição com tecnologia é, reitero, perfeita.
Aos impulsionadores e principais organizadores deste projeto em Fafe desejo que sejam cada vez mais e que continuem a divulgar o nosso concelho dessa forma tão nobre e tão jovial.
Para saber mais sobre esta atividade consultem www.geocaching.com

Vanessa Barata

19 maio 2013

Distribuição de “propaganda” política em forma de convite!


Em nada me surpreende este gesto do executivo municipal!
Primeiramente porque conforme já o aqui referi diversas vezes sou militante do PS, conheço por dentro a podridão em que o meu partido se tornou nos últimos anos, sobretudo ao nível local, uma espécie de “Monarquia” em que o seu rei D. José Ribeiro corta e prega, sentenciando todos aqueles que se opõem as suas ideias.
Este enxameia a “máquina” com “assessores” da sua confiança, (Carlos Mota, Adérito, Daniel Bastos, e afins) subaproveitando a capacidade dos que efetivamente poderiam contribuir para a musculação do partido. Ostentando-se quase sempre como um moralista, mas daqueles de trazer por casa…
Mas voltemos à propaganda, que além de deplorável assume uma índole muito pouco democrática, em nada condicente com os valores éticos e morais de uma sociedade que se diz livre.
Mas o que me inquieta não é o gesto nem mesmo os tiques ditatoriais com que há muito se “chefia” a autarquia de Fafe.
Surpreende-me e entristece-me acima de tudo a passividade com que os funcionários se deixaram e continuam a deixar controlar, maniatados, como se a liberdade de voto e de expressão depende-se de um qualquer indivíduo ou mesmo de um qualquer executivo.
Há dias discutia-se no parlamento uma proposta do partido “Os Verdes” onde os mesmos queriam pôr alunos a estudar a Constituição da República, digo eu, o problema não está nos alunos, está nos pais dos alunos, ou seja nos Políticos, que há muito esqueceram o que é a república quanto mais os seus elementares “pilares” de constituição…  
Mas tranquilizem-se os funcionários e acima de tudo os Fafenses, porque o VOTO continua a ser livre e secreto (por enquanto)!
E não valerá de muito o referido senhor dizer que agora se vai zangar, tal como o fez no jantar do PS 25 de Abril, porque não mete medo a ninguém…
Portanto se o “Vimaranense” Raul Cunha tenciona liderar o executivo do município de Fafe deverá “descolar-se” destes gestos pouco democráticos.
(Como diz o ditado: Diz-me com quem andas, e dir-te-ei quem és).
PS: Uma sugestão para o próximo livro do Daniel Bastos: “O Rei D. José Ribeiro”.
Esperemos apenas que este o escreva fora do horário de trabalho… Estamos a ficar um pouco fartos de pagar aos incompetentes para fazerem que trabalham…

Miguel Correia

16 maio 2013

Em Memória da Burra do Reigrilo


Vou directo ao assunto: a corrida de jericos faz falta. Olho para o programa das Feiras Francas de Fafe, que começaram ontem, e o que vejo, marcada para a tarde de hoje, é a "corrida de cavalos a passo travado". Apenasmente e, ainda por cima, estigmatizada por essa denominação assaz amaricada, "passo travado", só faltava mesmo dizer-se que as cavalgaduras também vão de salto alto. Mas burros é que nada, e logo nos tempos que correm. Parece impossível.
Lembro-me muito bem como era. Havia a corrida de cavalos, sim senhor, coisa amadora, com montadores e montadas da terra e arredores, que mediam forças por entre um mar de gente cheia de entusiasmo, chapéus e vinho, na mais nobre rua da vila. No empedrado onde costuma terminar a etapa da Volta a Portugal em Bicicleta. Partiam em frente ao Café Império e iam dar a volta na Cafelândia, ainda não havia rotunda, com as ferraduras novas a chisparem por todos os lados e alguns animais, de travões bloqueados, a espargatarem contra vontade para um 10 de nota artística nos Jogos Olímpicos e os donos de focinho no chão. Ao Império regressavam apenas três ou quatro conjuntos completos e o pódio era discutido já depois de cortada a meta, à força de varapau, ameaças de tiros e polícia, com a multidão a tomar diferentes partidos, de cabeça e chapéus perdidos, mortinha por também molhar a sopa. Isto eram as pessoas, os cavalos não se metiam. Mesmo os cavalos que tinham terminado a prova sozinhos, apesar de um tudo-nada desorientados, mantinham o fair play, viravam as costas à confusão e iam procurar os donos mercurocromados para pedirem desculpa pelo mau jeito. Quanto ao júri, ponderava criteriosa e responsavelmente todos os argumentos em discussão, sobretudo os argumentos que metiam pistola, e depois entregava a taça às primeiras mãos que a agarrassem.
O melhor vinha a seguir. Era a corrida de burros, que não era bem uma corrida, porque os burros recusavam-se terminantemente a correr. Davam uns passos, nem sempre no sentido correcto, e se calhar às vezes não havia vencedor. Mas o povo ria-se. É preciso que se note, porém, que os burros portavam-se assim não por serem burros mas por serem ignorantes. Na verdade, naquele tempo eles ainda não sabiam do estudo da Universidade de Londres que acaba de descobrir que os burros não são animais estúpidos nem teimosos. Serão surdos ou não compreendem inglês, quando muito, mas agora já sou eu a extrapolar.
O Reigrilo tinha uma burra que se chamava a burra do Reigrilo. O Reigrilo era tão teimoso como a burra, portuguesa e analfabeta, mas bebia muito mais. Eu nunca na vida vi o Reigrilo sóbrio. A sorte dele, quando saía do tasco do Paredes em adiantado estado de fermentação, era exactamente a burra, que o levava a casa, submissa e em piloto automático, debaixo de um chorrilho de insultos e chibatadas absolutamente imerecidas. Eu tinha medo do vinho do Reigrilo e a burra parecia que também.
Creio não cometer nenhum erro histórico se afirmar que a burra do Reigrilo só fazia frente ao dono pelos "16 de Maio", na corrida que nunca era. O Reigrilo, altamente decilitrado, aparecia sempre, para incómodo da organização e gáudio da populaça. Podiam dar a partida quantas vezes quisessem: a burra do Reigrilo não saía do sítio, apesar das bordoadas impiedosas que apanhava, e se se mexia era apenas para deitar o dono de cangalhas, uma e outra vez, numa vingança anual e certamente bem amadurecida, ali mesmo onde a humilhação do homem podia ser maior.
Por falar em humilhação. Soube-se ontem que a sorte grande do desemprego já sorri a mais de um milhão de portugueses, números oficiais. Não sendo tão bom como uma corrida de jericos, é, no entanto, uma alegre notícia para todos os felizes contemplados, provavelmente a melhor do ano - no disléxico léxico de Pedro Passos Coelho. Quem sabe até se não estará aqui a oportunidade de que o povo carece para resolver enfim atirar com a albarda ao ar.
 
Hernâni Von Doellinger, http://tarrenego.blogspot.pt/2012/05/em-memoria-da-burra-do-rei-grilo.html