Qualquer cidadão, sem formação técnica ou alguma qualificação no domínio da arquitectura, consegue identificar, com facilidade, os erros urbanísticos cometidos na nossa cidade. Ao passearmos no centro, qualquer leigo repara na singularidade de um “Royal Center” ou nos novos edifícios “modernistas” ao lado da Câmara Municipal. Estranha que uma torre que dizem ser um centro comercial ladeie com exemplares térreos de casas brasileiras. Edifícios de elevado valor municipal foram, lamentavelmente, destruídos com a conivência de políticos pouco visionários. Os novos ventos da modernidade trazidos após 25 de Abril originaram uma lamentável devastação de edifícios de valor histórico inquestionável. Embora este fenómeno tenha atingido grande parte das urbes deste país, no caso de Fafe esta situação assume particular gravidade.Recordar a inépcia com que se abateram exemplares únicos de arquitectura brasileira é olhar para um passado sem retorno, é olhar para um património e para uma marca identitária que valorizaria Fafe, valorizaria as sucessivas gerações de fafenses e promoveria mais turismo e outra economia urbana. (Custa mesmo a perceber que responsáveis do turismo tivemos ao longo dos tempos que nunca levantaram, nem levantam, qualquer celeuma perante o lapidar do nosso património cultural e arquitectónico...)
Sem termos a história ou a monumentalidade de uma cidade como Guimarães, poderíamos hoje ter a identidade da “Cidade dos Brasileiros” em vez de nos andarmos a equivocar com o “Amor de Cidade” ou uma suposta “Sala de Visitas” que tão bem recebe mas tão mal trata o seu património.
Uma das formas de prevenir erros futuros no planeamento urbanístico de Fafe é olhar para as asneiras do passado para que as mesmas não se repitam. Por isso, é errado pensar que o modo como construímos e planeamos uma cidade esteja reservado, apenas, a supostos técnicos na área e às autoridades políticas e autárquicas. Pensar a cidade de Fafe, pensar o espaço urbano, requer a intervenção de todos os fafenses que se preocupam com a qualificação e a organização de Fafe. Actualmente, temos uma sociedade mais esclarecida, outra educação patrimonial e consciências mais despertas. Apontamos o dedo mais facilmente à incompetência técnica, à demagogia política e conhecemos melhor o mercado da especulação imobiliária e sua ligação com a corrupção, o tráfico de influências ou o financiamento partidário.
Por isso, a salvaguarda deste património compete-nos a nós! Que saibamos, todos, honrar a memória, o trabalho e o exemplo de Miguel Monteiro na preservação desta nossa arquitectura ímpar.
Pedro Fernandes

"Os Deolinda são um daqueles raros casos, na música nacional, de embalagem completa: quando surgiram com Canção ao Lado , há dois anos, não foi complicado a qualquer ouvido com o mínimo de simpatia por pop acústica, fado e/ou música popular portuguesa apaixonar-se por canções cheias de graça como "Fado Toninho", "Fon-Fon-Fon" ou o hino em que se tornou "Movimento Perpétuo Associativo". O laçarote na tal embalagem foi a imagem do grupo, entre o lisboeta castiço e o cartoonesco urbano, traduzido nas inspiradas ilustrações de João Fazenda. Canção ao Lado foi o sucesso que se sabe mas Dois Selos e um Carimbo , garantem o casal Ana Bacalhau (voz) e José Pedro Leitão (contrabaixo) e os seus primos Luís José Martins e Pedro da Silva Martins (os guitarristas irmãos), não teve parto complicado. O truque foi seguir a pista deixada, em Canção ao Lado , pelas mais bucólicas e instrospectivas "Clandestino" ou "Não Sei Falar de Amor", conservando o humor mas evitando aprofundar a veia caricatural. Algures entre o fado e a marcha de santos populares, "A Problemática Colocação de um Mastro", por exemplo, é uma crítica à insegura megalomania portuguesa, mas nunca cai na anedota fácil.


















